A Mão Esquerda de Vênus e as deliciosas urgências de Fernanda Young

Por: Déa Paulino | Em: 25 / julho / 2016

Li “A Mão Esquerda de Vênus” pouco tempo depois de ter lido – e, confesso, me decepcionado um pouco com – o livro anterior de poemas da autora que me convenceu pela prosa – depois de ter me seduzido pelas referências estéticas (bem-vindos ao tempo dos escritores nas vitrines do Instagram!) – na imersão entre as páginas do muito bom “Tudo que você não soube”, que foi publicado em 2007.

Aprendi a ler mulheres como dizedoras do seu tempo, como escribas de uma época, por isso acredito que minhas referências ou preferências pessoais são insuficientes para determinar se um livro é bom ou ruim. Os livros são registros de vozes e muito me interessam as vozes registradas pelas mulheres.

Costumo dizer que a poesia convence pela música ou pelas imagens que cria e, embora a Fernanda Young diga ter lido e relido “A Mão Esquerda” em voz alta e sugira que os leitores também o façam, foi pelas imagens que o livro me encantou.

A “Mão Esquerda de Vênus” é um excelente registro do nosso tempo de urgências. Um registro intenso e dramático, sensível ao entorno e ao olhar do outro. Um registro saboroso, produzido por uma esteta talentosa que preenche as entrelinhas com suas muitas boas referências; que faz poesia taurina, em busca e desfrute imediatos das dores e do prazer.

Se a intenção da poesia, como de toda a escrita, é comunicar, “A Mão Esquerda de Vênus” cumpre seu papel: comunica. E não só, mas também dialoga com a imagem e as muitas realidades de nós.

A “Mão Esquerda de Vênus” tem um projeto gráfico belíssimo; o livro propriamente dito, em sua versão final – a despeito da infinitude da poesia -, diagramada e impressa como outros livros, é antecedido por colagens e rascunhos dos poemas e de parte do percurso do processo criativo da escritora. É como estar presente no nascimento e acompanhar o desenvolvimento dos poemas que, nas páginas seguintes, poderemos reler, para redescobrir ou reconhecer.

O livro é, para nós, leitorxs, um presente que chegou às livrarias para celebrar vinte anos de trajetória literária da autora que é mais conhecida pelos muitos livros em prosa e como roteirista de cinema e de televisão.

Interessante e interessada, Fernanda Young resiste e poetiza em espelho. E nós, que por vezes vislumbramos parte do nosso próprio reflexo através da transparência do vidro espesso, a agradecemos por nos dizer e por registrar parte das nossas vozes; agradecemos por insistir.

Déa Paulino

"artista, vegana, feminista, leitora compulsiva e mediadora do Leia Mulheres Itapetininga, o primeiro em uma cidade do interior".

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