Sem Palavras

Por: Pilar Bu | Em: 18 / maio / 2016

A autora de “Sem Palavras” chegou para mim antes do livro. Num desses dias quentes goianos, que eu não me lembro qual e ela deve saber contar melhor essa história, eu mandei uma mensagem cheia de intimidade e carinho para alguém que eu não conhecia pessoalmente, mas que sabia quem era de pesquisas na internet: “Oi, gata, tudo bem?”. Parece que foram essas as primeiras palavras que eu dirigi à Larissa Mundim. Nascia ali a amizade entre duas pós-piscianas e uma parceria que prometia ganhar muitos desdobramentos.

Dias depois estive no escritório da Negra Lilu, editora, e ouvi a Larissa me contar dos grandes feitos do Coletivo Esfinge em torno da divulgação do Romance “Sem Palavras”. Era um inventiva ousada que eu nunca tinha conhecido: espetáculo de dança, o filme “A Fuga”, as ações em torno da performance que ganharam os espaços urbanos da cidade, as Mensagens na Garrafa que ganharam o mundo, as tatuagens do Corpo Papel impressas na pele e na exposição fotográfica. Mais tarde eu iria ao lançamento de “Operação Kamikaze” [escrito também por Larissa, o livro conta o processo de produção de “Sem Palavras” e suas estratégias de divulgação], e acabaria comprando todos os livros da editora. Apenas quase um ano depois eu leria finalmente o “Sem Palavras”.

De fato foi muito acertado que nós (Pilar, Maria Clara e Ana Lu) tivéssemos escolhido “Sem Palavras” para o segundo encontro do #leiamulheres Goiânia. Ela provoca no leitor daqui uma grande empatia de saber que estamos percorrendo os mesmos espaços que as personagens. E estreitamos laços mais uma vez. Admito que tive medo de ler esse livro, Larissa sempre alerta: “É ousado!” Não tenho medo de dizer que as primeiras páginas me intimidaram e lá pela 40 eu já estava numa experiência literária de tirar o fôlego.

“Sem Palavras” é um livro sobre a entrega e eu entendi que pra lê-lo precisava fazer o mesmo: me despir. E quero saber sinceramente quem consegue sair ileso de estar cara a cara diante de suas maiores fragilidades.

Pois bem, muito mais do que um romance epistolar dos nossos tempos, em que conhecemos Laura Passing e Brisa Marin por meio da troca de correspondências eletrônicas (chats e e-mails), a obra é uma ruptura super contemporânea que desafia e extrapola o próprio suporte do livro. Nos convida ao prazer da experiência sensorial. Músicas, fotos e filmes, que podem ser acessados na rede por meio dos links que encontramos no texto, nos fazem mergulhar de cabeça nessa história de amor.

A metalinguagem que aparece, para mim na camada mais superficial, nos dá pistas de um conto escrito à quatro mãos. A obra dentro da obra que leva as personagens a transformarem-se: Laura em Nega de Neve e Brisa em Lilu Cajuína.

A construção da linguagem do carinho, das listas de desejo, do espaço possível que personifica a virtualidade, as camadas que vão sendo descobertas por que mais profundas: estamos de vez inseridos no universo de Nega Lilu.
Insisti em pensar, por muito tempo, que se tratava de uma literatura erótica maravilhosa e de um estímulo corporal intenso. É tudo isso também, mas depois eu entendi que “Sem Palavras” é um livro sobre a busca incansável de nós mesmos (sim, assim, redundante).

Nega e Lilu estão buscando compreender quem de fato são e a maneira como elas se relacionam e experimentam uma a outra dá pistas de aonde essa busca vai levá-las. Ao profundo conhecimento de seus limites, seus desejos e seus sentimentos. Laura na intensidade de seus anseios e Brisa na urgência de explorar o mundo, as duas na necessidade de responder às suas demandas pessoais e pertencerem tão somente a elas.

Quando compreendi isso, Nega e Lilu se transformaram mais uma vez e passaram a ser minhas confidentes, uma leitora especial que tinha acesso aos momentos mais íntimos de suas vidas, que tentava preencher os espaços vazios dos dias em que os e-mails e os chats não vinham ou não estavam disponíveis.

Pensar em “Sem Palavras” apenas como uma obra de ficção é esvaziar seu sentido e os esforços de Larissa Mundim em tornar essa história possível. Laura e Brisa transbordam e seguem de mãos dadas com seus leitores para todas as outras ações que permitiram a essa Operação Kamikaze ser bem-sucedida. Que marcou uma geração por sua ousadia. Que permanecerá contemporânea por essência.

Agora, vez por outra me pego pensando: O que será que Nega e Lilu estariam fazendo nesse dia?

Goiânia. Noite de maio. Vai chover.

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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