Falsos Segredos

Por: Stephanie Borges | Em: 20 / abril / 2016

Um pouco antes de Alice Munro ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura 2013, me deparei com dois livros da escritora nas livrarias que me chamaram a atenção “O amor de uma boa mulher” e “Felicidade demais”. Nunca tinha ouvido falar dela, mas notei uma ironia fina e desconcertante nas escolhas dos títulos. Veio o prêmio e falou-se sobre a quantidade de mulheres premiadas, sobre o conto ser considerado um gênero pouco comercial no Brasil e coloquei a Munro na lista, sem pressa. Flertei com ela lendo alguns contos de “Amiga de juventude”, mas só recentemente encarei um livro inteiro.

Há uma sutileza na escrita de Alice Munro que pode evocar ideias de literatura feminina e não é o caso, falo essa característica como consequência do engenho com que a autora constrói suas narrativas. Pensando na forma como a autora estrutura as histórias, penso em um truque de mágica. Ela conduz nosso olhar para um determinado ponto e enquanto estamos atentos, ela usa sua técnica para nos mostrar algo que mal intuímos estar num bolso falso, num forro, numa cartola bem ali na nossa frente. Munro deveria fazer parte do projeto Bruxas Literárias, de Katy Horan and Taisia Kitaiskaia.

Falsos segredos reúne oito contos ambientados na cidade de Carstairs, no Canadá, ou envolvendo moradores da região. É criado um clima suburbano, de cidade pequena. Segredos só duram em ambientes assim quando muito bem guardados. A proximidade criada pela autora cria a sensação de que seus personagens se cruzam pelas ruas, mesmo sem se conhecer, se relacionam durante algum momento da vida e depois seguem rumos diferentes ou estão a menos graus de separação uns dos outros do que seis definidos pela teoria.

Os contos não seguem uma cronologia. Somos conduzidos da fundação de Carstairs, no 1800, ao entre guerras. Personagens aparecem jovens em uma história e podem ser citados em outras bem depois de suas mortes. Conforme a leitura avança, nossa percepção deste microuniverso se expande, mas não de forma linear. Um conto apenas se aproxima de outro. O leitor estabelece conexões, recorda sobrenomes, situa os eventos no tempo.
Munro cria uma aparente simplicidade entre cenas domésticas, relatos de família, memórias e atinge o leitor sem reviravoltas ou mudanças de tom. Um detalhe revelado, um diálogo, uma contradição abrem uma nova percepção sobre os fatos e os personagens. As cartas são um elemento recorrente nos contos. Podem ser reveladoras ou apenas delimitar o espaço das coisas não ditas que impactam as relações humanas. Há um componente de voyeurismo na leitura da correspondência alheia, ainda que ficcional.

Amizades, relacionamentos amorosos, questões familiares e a história são parte dos segredos que o leitor vai encontrando no percurso. Alguns deles podem ser considerados falsos por não serem tão bem guardados o quanto seus donos possam imaginar, outros, inesperados, surgem de forma violenta. Munro trabalha tensões, culpas e desejos ocultos sob camadas de civilidade. A autora é afiada em registrar as diversas contradições de homens e mulheres.

Os contos são longos e quando começamos a sentir que estamos entrando naquela breve narrativa, uma digressão nos desestabiliza. A história muda de rumo. O que parecia ser, definitivamente não é. Se a ilusão da simplicidade da linguagem nos convida, os caminhos pelos quais Alice Munro nos levam são inquietantes. Embora seus narradores possam recorrer à ironia, evitam julgamentos. É o leitor que, montando o quebra-cabeças formado por partes das trajetórias das pessoas de Carstairs, se depara com questões que extrapolam a vida da cidadezinha e dialogam com situações com as quais podemos nos deparar em qualquer lugar.

Há sim, questões sobre como o casamento limita a vida de uma mulher, sobre como a solidão feminina é mal vista, especialmente se acompanhada de uma vida sexual ativa. Encontramos a fragilidade de meninas em situações inseguras e de mulheres que optam por fingir não saber. No entanto, também estão presentes homens que precisam tomar decisões e viver com elas, sujeitos que parecem ter seu futuro determinado por questões familiares sem ter seus desejos levados em consideração. Homens procurando ser amáveis para serem aceitos ou que acovardam diante da vida e da morte. Os Falsos segredos de Munro nos colocam diante de incômodos, o que é natural quando nos deparamos com algo devia estar bem guardado.

Stephanie Borges

Stephanie Borges é uma carioca do subúrbio que veio para São Paulo seguindo seu coração. Jornalista e leitora, sua vida mudou quando descobriu que poderia trabalhar com livros. Beiras de praia, botecos de esquina e livrarias são alguns de seus lugares preferidos no mundo.

Veja outros posts de Stephanie Borges