Entrevista: Ana Cássia Rebelo

Por: Leia Mulheres | Em: 27 / abril / 2016

“Não sei ser mulher sem ser feminista”, diz Ana Cássia Rebelo em entrevista exclusiva para o Leia Mulheres.

A literatura publicada em blogs ganha cada vez mais espaço nos dias atuais, seja pela democratização do acesso que a Internet possibilita, seja pela rapidez com que um texto pode ser lido e compartilhado no mundo virtual. Nesse sentido, a produção dos blogs também contribui para driblar certas limitações do mercado editorial, uma vez que permite divulgar novas autoras que tem conquistado leitores e leitoras em diversas partes do mundo pelo talento de sua escrita.

No blog “Ana de Amsterdam”, a moçambicana Ana Cássia Rebelo encontra refúgio ao final do dia para escrever. Ela escreve sobre suas inquietações e angústias, sobre a tristeza que há algum tempo a persegue, entre vários outros assuntos, por vezes tão comuns a muitas outras mulheres. Dado o tom confessional do texto, que mantém uma característica de diário íntimo, ao qual supostamente não teríamos acesso pelo que de íntimo reside ali, nossa curiosidade é despertada. Ainda que misture alguns contos, a sensação de aproximação que os leitores têm em relação a essa mulher que não tem medo de falar de suas dores é o que mais chama a atenção em “Ana de Amsterdam”. Também não se pode deixar de notar a qualidade do texto de Ana Cássia, que revela todo o potencial de uma grande escritora. Qualidade esta que conquistou o editor João Pedro Jorge, organizador da seleção de textos escritos por Ana Cássia Rebelo, de 2006 a 2014, e reunidos no livro “Ana de Amsterdam”, publicado em 2016 no Brasil pela Biblioteca Azul.

Por falar de depressão e suicídio, explorando com lirismo muitas das vicissitudes presentes no universo feminino, Ana Cássia Rebelo tem sido comparada a Sylvia Plath. Em uma entrevista exclusiva para o Leia Mulheres, a autora, que vive em Portugal com os filhos, falou sobre feminismo, o processo de escrita no blog e indicou as autoras que gosta de ler em Portugal. Confira a entrevista:

1) Por que você apagou um post sobre feminismo publicado recentemente (texto citado a seguir)? Seria por conta da dificuldade que enfrentamos por afirmar sermos feministas, principalmente em um país conservador como Portugal? Você acha que os textos que você escreve ajudam a mostrar a necessidade de sermos feministas nos dias de hoje, quando há tanta desigualdade e a violência contra a mulher ainda é muito grande?

(Perguntam-me se sou feminista. Pergunta de merda. Sou feminista por dentro, por fora, em cada fio de cabelo, em cada célula que me constrói, no mais íntimo de mim, com uma certeza firme, ontem, hoje, sempre. Não sou uma super-mulher, não sou uma fêmea, sou apenas uma mulher. Tenho uma granada na mão e um fio de baba cai da minha boca raivosa. O feminismo, das muitas lutas que tive, é a única que me resta.)

Respondo com sinceridade: bebo mais do que devia quando a noite chega, depois de deitar os meus filhos. Bebo para aguentar a solidão que a noite traz. Nessas alturas, um pouco ébria, escrevo no blogue sem a contenção que acho ser necessária na escrita. Quando amanhece, depois de despertar os meus filhos, apago o que escrevi. Não por não me rever no que escrevi, mas apenas porque formalmente a escrita é pobre. Sou feminista, não sei ser mulher sem ser feminista. Não quero ser porta-voz de ninguém. Escrevo sobre as minhas inquietações, sobre a revolta que sinto por me sentir presa a uma maternidade que, por não ser partilhada, me agrilhoa, me impede de realizar. Há um certo feminismo bacoco, muito em voga nos dias de hoje e que só serve aos homens, que crê no mito da super-mulher: a mulher que trabalha, cuida da casa, dos filhos, é bonita, apetecível na cama e está sempre feliz. Essas pobres mulheres, essas tão estúpidas mulheres, não percebem que enquanto não houver uma partilha total da maternidade não serão livres.

2) O fato de embaralhar os limites entre uma verdade de si e a ficção no blog já lhe causou algum problema na vida real? (Lembrando que, no Brasil, o livro foi publicado como “ficção” por uma questão de mercado.)

Aguento os olhares recriminadores de certos colegas de trabalhos e vizinhos, mas não me calo. Quando escrevo sobre masturbação, frigidez, ideias suicidas, desespero, infidelidade, sobre o fardo da maternidade, faço-o como mulher e com uma determinação firme. Assumo a verdade dos factos, escrevo na primeira pessoa, sabendo que assim a minha escrita adquire uma natureza política e militante. Quero gritar aos quatro ventos: isto é o que sou, isto é o que sinto, isto é o que faço e, ao contrário de um certo figurino imposto pelo pudor e pela moral, isso em nada me diminui como mulher e mãe.

3) Agora que alguns textos do “Ana de Amsterdam” foram publicados em livro, você pretende escrever em outro formato? Um romance, por exemplo? (Mas seguimos torcendo para que continue a escrever no blog!)

O romance exige um fôlego que não tenho e uma técnica que não domino. Hoje em dia toda a gente escreve romances: uns bons, uns maus, outros muito maus. Dizem os editores que o romance vende melhor. Mas eu não escrevo a pensar no leitor, escrevo porque preciso de escrever, a escrita ajuda-me a desembaraçar da dor e da angústia. Por ora, interessa-me a narrativa curta, confessional, diarística, alguns pequenos contos. Há um diálogo permanente entre aquilo que escrevo e a realidade que vivo. Escrever sobre os acontecimentos da minha vida, ajuda-me a dar-lhes corpo, ordem e também uma beleza que de outra forma seria inalcançável. Pego numa vida banal, indistinta, igual à de todas as mulheres da minha geração, e transformo-a. Dou vida à minha vida através da escrita. Ao longo destes anos, percebi que escrever sobre mim, esmiuçando fraquezas, revelando angústias, não me poupando, me dá uma confiança absurda.

4) Quais autoras portuguesas você gosta de ler e recomenda?

Gosto muito de uma escritora portuguesa, injustamente esquecida em Portugal: a Maria Judite Carvalho. Mulher de um escritor muito apreciado, o Urbano Tavares Rodrigues, ficou sempre na sua sombra. Escreveu a solidão das mulheres, numa escrita limpa, sincera e comovente. Das escritoras mais novas, gosto da Hélia Correia, da Dulce Maria Cardoso e também da Lídia Jorge.

5) Seu blog tem o nome de uma música do Chico Buarque. O que mais você ouve de música brasileira?

Escuto sobretudo o Chico Buarque. É um amor antigo, que me deixa louca, me faz viva, a minha pele fica arrepiada quando o oiço. Depois de deitar os meus filhos, ponho um cd, abro uma garrafa de vinho e, de cigarro nos dedos, descalça, danço para o meu gato. Quando anoitece, por instantes, tenho medo da solidão que se avizinha. Ao ouvir o Chico Buarque, esqueço tudo.

6) Acho que já lhe perguntaram, mas será que em 2016 você vem ao Brasil, talvez para a FLIP?

Gostaria muito de ir, mas não recebi nenhum convite. Confesso, porém, que aceito ir a festivais literários, não por ter grande interesse naquilo que os autores têm para dizer, interessam-me mais os seus livros, mas porque gosto da ideia de por uns dias me libertar da rotina e dos meus filhos.

7) As comparações de seus escritos com os de Sylvia Plath a importunam?

Ser comparada com uma escritora como a Sylvia Plath afaga-me o ego. Essas comparações, a meu ver, no entanto, são excessivas e delirantes. Por muito que me esforce, por muito que escreva, nunca chegarei aos calcanhares da Sylvia Plath e de outras extraordinárias escritoras.

Este post teve a colaboração de Paula Dutra, tradutora e doutoranda em literatura na UnB.

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