A Lógica Circundante de Ana Cristina Cesar

Por: Tatianne Dantas | Em: 3 / março / 2016

Conheci a poesia de Ana Cristina Cesar de uma forma inusitada. Em 2013, quando resolvi escrever minha monografia relacionando literatura e psicanálise, a ideia inicial era falar sobre a poesia de Sylvia Plath. Já tinha uma história com essa poeta desde a adolescência, então o caminho natural seria esse. Na escolha da bibliografia, comecei a ler “A poética do suicídio em Sylvia Plath” da psicanalista Ana Cecilia Carvalho, um trabalho minucioso que relacionava de uma forma muito mais abrangente o que eu intencionava escrever para concluir meu curso. Em uma linha, provavelmente em um fim de página, Ana Cecilia citava Ana Cristina Cesar, poeta que não era um nome estranho para mim. Mesmo sem conhecer direito e correndo o risco de não gostar tanto, sugeri ao orientador e à amiga que escreveria comigo, “vamos escrever sobre Ana Cristina?”. E fui atrás de seus livros, na época ainda editados pelo Instituto Moreira Salles e disponíveis apenas em sebos (só no final de 2013 a Companhia das Letras lançaria a coletânea Poética).

Comecei então uma imersão em uma obra multifacetada, composta não apenas de poesia, mas também cartas, trechos de diários, textos em verso, desenhos e traduções. Apesar de eminentemente poética, a escrita de Ana C., como assinava seus livros, é permeada por traços de uma literatura confessional, que usa o artifício de escancarar tudo para esconder o que verdadeiramente importa. Escancarando a ferida ela pode tornar-se mais forte ou vulnerável, depende do tipo de contato que esse machucado vai exercer com o mundo exterior. E são essas tentativas que aparecem, às vezes muito claras, às vezes apenas nas entrelinhas. O importante é saber que, como leitores, temos sempre a sensação de aproximação com algo muito inquietante. A poesia, os diários e as correspondências de Ana Cristina Cesar nos convidam para uma intimidade não só com o que ela escreve, mas com a literatura como um todo. Ela nos convoca a fazer parte do mistério, a compartilhar a sua dor e, ao tocar nesse desconhecido também sermos reviradas. Também corremos o perigo de ficar em carne viva.

Mas, quem é Ana Cristina?

Ana Cristina era poeta de uma geração conhecida pela escrita de uma poesia marginal. Em 1976 participou da antologia 26 poetas hoje, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda que procurava reunir o principal do que estava sendo produzido na época. Avessos às publicações em editoras, os poetas que constavam nessa antologia eram os responsáveis pelo movimento que estava sendo conhecida como “a nova poesia brasileira”, com estruturas informais que procuravam retirar da poesia os aspectos que a deixavam inacessível para a maioria da população. Chacal, um dos poetas que participaram ativamente desse movimento diz que o principal objetivo da poesia marginal era falar do dia a dia, da polícia no calcanhar (lembrando que o Brasil estava em plena ditadura militar) e do pastel que comia no botequim da esquina. Ao aprofundar mais a leitura da poesia de Ana C. podemos constatar que, apesar de estar inserida no contexto marginal e ser claramente uma adepta do estilo experimental e não formal, há uma diferença entre o que era escrito por ela e os seus contemporâneos da década de 70. A característica de informalidade presente em seus textos aparece como algo próprio, uma necessidade da própria autora de se comunicar e proporcionar uma experiência intimista ao leitor. A própria formação de Ana Cristina baseada em um profundo conhecimento da tradição literária, desmente essa categorização exclusiva no movimento da poesia marginal, deixando-a à margem da margem – ou à deriva, navegando de acordo com a sua intuição, ressaltando imagens que são tão presentes em sua poesia: pontes, mares e navios.

Essa ligação profunda que Ana C. possuía com a tradição literária é derivada principalmente da sua origem e formação. Nasceu em 02 de junho de 1952 em uma família de intelectuais, conservadora e de religião protestante, mas com forte contato com a literatura e o mercado editorial. Ainda criança, ditava seus poemas à mãe, que ia escrevendo em cadernos aqueles versos incipientes. No início do livro Inéditos e Dispersos (1998), uma edição póstuma de seus escritos organizada por Armando Freitas Filho, podemos constatar essa precocidade, com histórias, desenhos e poesia que são datados desde os seus nove anos de idade. São imagens e uma escrita que trazem já impressas características que vão ser amadurecidas com o tempo, mas já denotando uma força e uma identidade poética muito grandes. Na adolescência, Ana Cristina passou um ano na Inglaterra (1969-1970) estudando com uma bolsa de intercâmbio na Richmond School for Girls, viajando por vários países e entrando em contato com autoras integrantes de sua formação posterior como tradutora: Katherine Mansfield, Sylvia Plath e Emily Dickinson são algumas delas. Foi com um trabalho de tradução comentada do conto Bliss de Katherine Mansfield, que Ana Cristina voltou à Inglaterra já formada em Letras pela PUC-RJ para cursar um ano de mestrado em 1979. É nesse mesmo período que o primeiro livro de poesias Cenas de Abril, seguido de Correspondência Completa e um ano depois, Luvas de Pelica. Todos produzidos de forma independente, sendo que destes, apenas Correspondência Completa pode ser considerado um livro marginal por excelência, pois é um livrinho de quinze páginas, mimeografado, com capa de cartolina grampeada e uma inscrição de segunda edição, em claro deboche, uma vez que tratava-se de um único texto, ainda indefinido como gênero. Era uma correspondência sem destinatário específico, deixando jogada no ar a pergunta: é para todos ou para ninguém? Já em 1982, Ana Cristina tem pela primeira vez seus poemas publicados por uma editora, em um livro chamado A teus pés, que traz além dos poemas inéditos reunidos com esse título, também os três volumes anteriores quase completos. Em meio ao sucesso de publicação do livro, com um retorno bastante positivo do público e da crítica, Ana Cristina vê-se imersa em uma forte crise, classificada por amigos próximos como emocional e existencial, que a leva a tentar suicídio duas vezes em 1983, sendo fatal a segunda tentativa.

A apropriação do tradicional aparece na poesia de Ana Cristina de diversas formas e em diferentes momentos. Tanto nos momentos em que estava aprendendo a escrever e usava os versos de poetas como Jorge de Lima como molde para os seus, como posteriormente, utilizava-se de poemas de Baudelaire, Drummond, Bandeira, da escrita de James Joyce em Ulysses e tantos outros, enfatizando a característica de ambiguidade e duplicidade em sua poesia. A escrita em forma de fala e escuta é uma das principais marcas da poesia de Ana C. Mas não um falar e ouvir banal e aleatório, mas com um trabalho de lapidação que recolhe as ausências dessas conversas. É nessa falta, procurando uma vertente que leve até o mais profundo da palavra, que não precisa ser exatamente inédita, mas sim trazer algo novo, que Ana Cristina parece se inserir. A poeta dizia que o ineditismo não existe, tudo já foi escrito e sua tarefa é reinventar o processo. A forma como relacionamos e mostramos ao outro – leitor é nova, mas o conteúdo em si é antigo, foi gasto há milhares de anos atrás. Mas essa reedição não é feita também sem uma perda, na escrita e provavelmente no psiquismo da autora que às vezes se referia ao seu conteúdo como algo prejudicial e que machuca, algo da ordem do doentio que insistia em correr em seu sangue, apesar da tentativa dela de expurgar.

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

(A teus pés, pág 89)

No entanto, a poesia também é lugar de sensualidade, o que gera a culpa e necessidade de expiação é o prazer, o que une a escrita ao corpo mais uma vez, pois ela apresenta uma alta carga de erotização. O corpo traduzido pelas palavras, escrutinado pelas diversas maneiras de manipulação da linguagem. Ana Cristina traduziu poetas mulheres, buscando misturar-se e colocar-se lado a lado daquelas que tanto respeitava e tanto a haviam ensinado. E que haviam aberto as portas para a sua liberdade, afinal, foi através da tradução de um conto de Katherine Mansfield que pôde desvincular-se da sua pátria e falar uma outra língua.
Diante da apropriação da tradição e das traduções, é impossível não se perguntar mais uma vez, valendo-se desse nome que ela criou sem deixar de ser Ana Cristina Cesar, quem é Ana C.? Normalmente quando um escritor se identifica com outro nome é para ocultar uma identidade, como fazem os que usam pseudônimos ou heterônimos, mas Ana Cristina não se esconde, pelo contrário. Ela dá pistas a todo momento de quem ela é mas também diz que ninguém deve se contentar com apenas uma definição. Por isso, no começo eu disse que sua poesia tem características multifacetadas. A tendência confessional de sua obra, além de fazer parte do jogo de velar e mostrar, também aparenta a necessidade de inscrever tudo que é observado ao redor. Não existe uma separação, é a própria escrita que é feita através do corpo, como se os olhos e os dedos também fizessem parte do papel. Essa transmutação também acomete quem lê, que sente-se parte do que é lido, como se os olhos da poeta estivessem voltados para fora. Olhos que estão presentes na poesia de Ana C., tanto na forma física, como na forma de espelho.

Em um de seus últimos poemas, transcrito abaixo, a poeta fala sobre isso de uma forma lúcida e rasgante. Ana Cristina teve a coragem de escrever uma poesia que toca nos limites entre vida e morte. Ela fala de um retorno. São múltiplos os retornos que se empreendem em sua obra, através de reedições e discussões. Sua escrita inquietante permanecerá por muito tempo.

Tenho arrumado os livros.
Tiro de uma prateleira sem ordem e coloco em outra
com ordem. Ficam espaços vazios.
Hora em hora.
Não tenho te dito nada.
Ligo para os outros.
O que eu poderia dizer é perigoso: certeza (assim como
eu disse: daqui a dez anos estarei de volta) de que nos
reencontramos, cedo ou tarde.
Mas não sei mais quando
Cedo ou tarde reencontro – o ponto
de partida.
(Poética, pág 304)

Tatianne Dantas

Psicóloga com os dois pés enfiados na pesquisa em literatura e psicanálise. Cresceu no sertão e aprendeu que pode levá-lo para qualquer lugar do mundo. Escreve sobre tudo o que gosta no blog No país das entrelinhas e fala sobre literatura no canal de mesmo nome. É uma das criadoras do clube de leituras feministas Bastardas e mediadora do Clube Leia Mulheres em Florianópolis. Seu poema favorito é Tabacaria.

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