Todas as horas de um homem

Por: Juliana Gomes | Em: 2 / fevereiro / 2016

A casa que abriga as minhas coisas cheias de passado, velhas companheiras, abriga também a minha solidão, os meus pensamentos e a minha saudade.” Trecho da biografia de Maria de Lourdes Teixeira – “A carruagem alada”

Maria de Lourdes Teixeira é uma autora que chegou até mim pela minha fixação por São Paulo e pelas emoções que essa cidade me traz, a comoção por trás dessa metrópole. Quem pensa que é apenas uma leitura da época usando a industrialização e o êxodo de migrantes e imigrantes para São Paulo, se engana e muito. Eu a encontrei por causa do livro “Rua Augusta”, que ainda não li, mas por ter amado a introdução dele, acabei caindo no “Todas as horas de um homem”. São contos, pequenas histórias sobre a cidade na cidade de São Paulo. A solidão é retratada sem frases feitas para estampar camisetas, mas para atingir em cheio paulistanos, amantes da cidade ou migrantes, assim como eu.

A cidade não é meramente o pano de fundo das histórias, mas personagem atuante, que é o gatilho para que a atitudes nos contos aconteçam de forma permissiva. No conto “As safiras” a personagem que é retratada como a esposa traidora e mãe da noiva Ivete parece ter muita da autora, já que esta se casou muito cedo e por imposição do marido parou de escrever, vivendo quase em uma torre de marfim…ou melhor, de safiras. No caso da autora e personagens, as duas preferiram ficar sem as safiras e decidiram ver o mundo lá fora.

O conto que dá nome ao livro é de um homem que viveu a vida toda as custas da mãe e quando essa morre, acaba gastando tudo como uma forma de vingança. Quando é despejado decide morrer na cidade (forma de chamar o centro da cidade e ainda hoje um costume interiorano) de uma forma inusitada.

As onomatopeias criadas nos contos são algo incrível, assim como as imagens. O livro é de uma escrita fotográfica. A condição da mulher, a sociedade paulista da época e a solidão da cidade grande são as temáticas preferidas nos 13 contos, sem edição atualmente no Brasil, além dos sebos.

Estou escrevendo pelo encantamento que essa autora me causou e como ela é esquecida sem edições atuais. Como uma autora que foi crítica literária e tradutora (trauduziu Colette em 1956), ela pode ter se perdido na vastidão de tudo que é lançado anualmente. Este livro foi publicado em 1983, seis anos antes de sua morte em 1989.

Em sua biografia, “Carruagem Alada”, ela cita o seguinte trecho que resume sua vida durante o curto perîodo que durou seu primeiro casamento: “Foi em minha vida um longuíssimo sofrer que não conseguiu anular, porque a literatura me amparou, foi meu arrimo, o meu pão de cada dia”. A autora casou-se novamente com José Geraldo Vieira, voltou a escrever sua literatura e colaborou com as revistas literárias da época.

No livro “Álbum de leitura Memórias de vida, histórias de leitoras” a autora Lilian de Lacerda percorre a história de vida e de leitura de um grupo de escritoras brasileiras nascidas entre 1843 e 1916, e há um capítulo especial sobre Maria de Lourdes Teixeira.

Ler esse primeiro livro dela é convidá-los a redescobrirem essas autoras que ficaram perdidas e pouco faladas hoje em dia. Espero poder trazer mais algumas no site como a Michelle já fez, falando sobre a Carmen da Silva, e como escrevi sobre Pagu e seu romance “Parque Industrial” que deu início ao romance panfletário no Brasil.

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

Veja outros posts de Juliana Gomes