Entrevista: Cecília Prada

Por: Mayara Herculano Alves | Em: 18 / fevereiro / 2016

A mediadora Mayara, do Leia Mulheres de Campinas, entrevistou a escritora Cecília Prada. Confiram uma breve apresentação da vida da mesma, bem como algumas de suas reflexões sobre a mulher na literatura e no mercado editorial como um todo.


Quando comecei a divulgar o clube de leitura Leia Mulheres em Campinas recebi uma ligação inusitada, afinal, não é todo dia que alguém nos telefona para se apresentar. Do outro lado da linha uma senhora com toda firmeza me contava sobre seu interesse no projeto e pedia para me conhecer pessoalmente.
Assim que recebi seu primeiro e-mail, que carregava um pouco de sua história e três contos de sua autoria, incluindo La Pietà, conto que abriu a 46ª Feira do Livro de Frankfurt em 1994 (ano em que o Brasil foi país-tema), fiquei bastante impressionada, me perguntando se eu não deveria já ter conhecido essa autora.

Cecília Maria do Amaral Prada, nasceu em Bragança Paulista, em 23 de novembro de 1929, se formou em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Jornalismo pela Casper Líbero em 1951, quando iniciou sua formação no Instituto Rio Branco e ingressou na carreira diplomática, da qual foi obrigada a se desligar um ano depois, decorrente do casamento com um colega de trabalho, caso esse que está na justiça até hoje como emblemático de preconceito contra a mulher.
Seu primeiro livro, “Ponto Morto” ( livro de contos, com prefácio de Lygia Fagundes Telles, publicado pela Edigraf-SP, em 1955), traz o conto que dá nome ao livro, premiado em 1949 no concurso promovido pelo jornal A Gazeta. Com o segundo, “Caos na Sala de Jantar” (publicado pela Editora Moderna, em 1978), veio o Prêmio Revelação de Autor/1978- APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), além do segundo lugar no Prêmio Governador do Estado de São Paulo (1962) e no Prêmio José Lins do Rego de Ficção (1965), ambos com a novela que dá titulo ao livro. Desde então a autora teve reconhecimento da critica e diversos títulos publicados como: “Estudos de interiores para uma arquitetura da solidão” (DBA Books& Arts-2004); “O país dos homens de gelo” (Atalanta Editorial-2007); “Farós estrábicos na noite” (Editora Bertrand Brasil-2009); “Entre o itinerário e o desejo” (Scortecci-2012); “Menores no Brasil: a loucura nua) (2ª edição – Atalanta-1998); “A pena e o espartilho” (2ª edição – Editora Unisinos-2010); “Atrás da porta da história” (Atalanta-2007); e “Profissionais da solidão” (Editora SENAC-2013).

A maior parte dos 13 livros da autora são encontrados apenas em sebos. Todos, exceto “Profissionais da Solidão”, estão atualmente livres de contratos e podem ser reeditados, incluindo quatro livros inéditos como seu romance autobiográfico “Sou mulher, logo, não existo”.

A escritora, jornalista, dramaturga e tradutora, Cecilia Prada, que nem pensa em se aposentar, trabalha em seu novo blog e vive hoje em Campinas, onde me recebeu para nos contar um pouco sobre como se sentiu perseguida após uma série de textos seus ter ganho o Prêmio Esso de reportagem (1980), com sua série jornalística sobre negligência e maus tratos em uma instituição de saúde mental para menores; além de como foi sua trajetória na ficção e no jornalismo e sua desilusão com o cenário literário atual onde “Não há debate, não há comprometimento interior, independente, do escritor, não há mais tempo para a interiorização, a reflexão, a obra bem feita”.

Mayara Alves – Cecilia, você foi a primeira mulher a receber o Prêmio ESSO de Reportagem individualmente e em âmbito nacional, em 1980, com uma série de reportagens publicadas na Folha de São Paulo, que se tornou o livro “Menores no Brasil:a loucura nua”. Qual foi a importância desse trabalho na sua carreira?

Cecilia Prada – Na minha principal e muitíssimo prezada profissão de jornalista, que iniciei no jornal A Gazeta de São Paulo aos 20 anos, aconteceu-me uma desgraça maior. Justamente quando, em 1980, atingi o ápice da profissão , eu me vi “excomungada” pelos setores da intelligentsia comunista por ter denunciado e fechado, sem pedir licença às “bases” (que nunca foram minhas), uma clínica psiquiátrica juvenil que pertencia a médicos “progressistas” mas que era um verdadeiro campo de concentração para menores. Vivi, estou ainda vivendo, 35 anos de patrulhamento, exclusão, 35 anos de Sibéria – no Brasil, bem entendido. Porque, por uma ironia da sorte, no meu período de auto-exílio vivido na Itália depois desse episódio, fui convidada para colaborar no órgão oficial do comunismo, l´Unità. A primeira matéria que fiz para eles, de página inteira em edição nacional, foi sobre a reedição da tradução italiana de “Grande Sertão:Veredas”, o que me deu muito cartaz. Um dia ousei propor ao editor a publicação de um suplemento literário, primeiro descartaram a ideia, e então, alguns meses depois me anunciaram que haviam aceito a minha sugestão e que o primeiro conto a ser publicado seria o meu La Sfida (“O Desafio”) – página inteira, dados biográficos meus, uma belíssima ilustração. Nunca me pediram atestado ideológico algum, nunca me senti tão livre para publicar o que queria. O editor chegou a me dizer que publicavam porque o que eu escrevia “é bello, e basta!”.

M.A.- Já que entrou nesse assunto, em seu livro “A pena e o espartilho”, você faz um estudo da vida e das dificuldades que escritoras e outras personalidades tiveram na sua jornada. Fale um pouco das dificuldades que você, Cecilia, enfrentou e enfrenta ainda hoje.

C.P. – Fui considerada sempre uma “transgressora” – desde pequena eu era uma rebelde, a menina que faz as perguntas impertinentes, que questiona preceitos, limitações. Uma rebelde intelectual, apenas. Era boazinha, bem-comportada, segui à risca o traçado das mocinhas da época. A única coisa que eu queria era ser independente, poder ter uma profissão. Acabei tendo meia dúzia, mas a sociedade se vingou de mim – como diplomata que fui, formada pela turma de 1957 do Instituto Rio-Branco, o Itamaraty me obrigou à demissão, quando me casei, em 1958, com um colega. Tentei a vida toda obter minha reversão à carreira judicialmente, mas nada consegui. Para minha grande surpresa, porém, fui procurada em 2014 pela Comissão Nacional da Verdade, porque meu caso com o Itamaraty fora declarado “caso emblemático nacional de discriminação contra a mulher” – e como foi reconhecida também interferência do governo militar, na década de 1970, para impedir minha reversão ao serviço público, estou até hoje à espera de uma possível declaração de “anistiada política” por parte da Comissão de Anistia, para que meus direitos possam – enfim!- ser reconhecidos e eu possa ter ao menos um restinho de vida mais sossegado, na posição que eu deveria ter hoje, de “embaixadora aposentada”. Serão reconhecidos meus direitos, algum dia?

M.A. – Sobre essa meia dúzia de profissões: Entre toda sua obra, que contempla além do jornalismo, também ficção, teatro e traduções, existe um filho preferido?

C.P. – O exercício da ficção, e depois o jornalismo. Iniciei-me nas duas coisas ao mesmo tempo. O resultado do boicote que venho sofrendo me prejudicou muito como escritora. Em 1978 meu principal livro, “O Caos na Sala de Jantar”, foi premiado com o “Revelação de Autor/1978 da APCA”, e já recebera antes dois outros prêmios importantes. Foi muito apreciado por críticos e público e eu pretendia seguir escrevendo ficção, mas a história do boicote me pegou feio, mesmo, fiquei desempregada, sem meios de subsistência, muito abalada moralmente, e passei muitos dos anos seguintes aprofundando ,com terapia, meus problemas pessoais, a condição da mulher neste tipo de sociedade. Textos que não podia publicar, não tinha aonde, sofro até hoje boicote por parte de certas editoras, publicações, universidades. Faço parte de um grande grupo de intelectuais da minha geração que estão na mesma situação, estivemos todos imprensados entre duas ideologias totalitárias, de direita e de esquerda. Mas neste momento histórico, felizmente, tudo isso está sendo aberto, ventilado, denunciado.
Então fiquei muito fechada nisso, ruminando o material que agora está na “autobiocoisa” terminada, “Sou mulher, logo, não existo” – para a qual procuro editor corajoso e inteligente.

M.A. – Quantos livros publicados você tem hoje?

C.P. – São 13 livros publicados, de ficção e de ensaios, poderiam ser uns 20. E tenho também muitos contos publicados em antologias estrangeiras (Estados Unidos, Itália, Suíça, Alemanha, Portugal, na Suécia e em outros países escandinavos). Já fui entrevistada uma vez pela ABCNews de Sidney, por telefone, veja só…por causa de um artigo publicado nos Estados Unidos. Meu conto La Pietà ficou famoso inclusive no exterior – em 1994, quando o Brasil foi país-tema da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, ele foi escolhido para ser lido na inauguração do evento em toda a cadeia radiofônica alemã, na tradução de Curt Meyer-Clason, o famoso tradutor de Garcia Marques e de Guimarães Rosa.
No meu período nova-iorquino (1961/1964) participei ativamente dos movimentos da vanguarda teatral, tive peça produzida lá, cheguei a ser considerada adviser do famoso The Open Theater de Joe Chaikin. Tenho 7 peças escritas, algumas em inglês.

M.A. – No seu conto Manchas em um tapete persa, presente no livro “Faróis estrábicos na noite”, de 2009, a narradora e personagem principal fala da relação conflituosa com a irmã e em certo ponto, do desejo de ser escritora, mas não encontra nenhum tipo de apoio. Como foi pra você, se tornar jornalista, diplomata e escritora dentro da sua família e no seu meio social?

C.P. – Meu pai via minha inteligência com muito orgulho, me estimulava muito a escrever bem, lia-me trechos dos autores clássicos. Quando eu tinha uns 8 anos ele me deu um livrinho da Melhoramentos, “A história do Rei Lear” – fiquei muito assustada com a maldade dos personagens, com as ilustrações e com a cena da capa, aquela em que o conde de Gloucester é cegado por ordem do filho. Mas nunca esqueci seu impacto, acho que esse livro me abriu para a realidade complexa da vida. Meu pai era muito religioso, fanático, e me programava para ser “uma escritora católica”. Morreu quando eu tinha 15 anos, e eu, filha única, fiquei entregue a minha mãe, impregnada de uma religiosidade inteiramente neurótica – da qual me afastei definitivamente por volta dos 20 anos. Hoje sou convictamente agnóstica, opositora de todas as mitologias religiosas. No meu meio social fui – até os 50 anos, quando ocorreu o boicote explicado – sempre muito bem aceita e lida, mesmo quando estava no exterior. De meu período de teatro em Nova York, por exemplo, mandei artigos de crítica para O Estado de São Paulo que foram divulgados com muito destaque por Décio de Almeida Prado, nosso maior crítico teatral.

M.A.- Me conte: de onde surgiu o interesse pela literatura? Como começou escrever?

C.P. – A verdade é esta: eu nasci dentro de um livro. Em uma cartilha escrita por meu pai quando eu tinha uns seis anos, “A Cartilha da Cecília”, em que eu aparecia de capa a capa em historinhas tipo “A boneca da Cecília”, “O cachorrinho da Cecília”, e tomando café, andando de bonde, brincando no parque, etc. Portanto, não precisei esperar pela autorização de Foucault para pensar em minha vida como uma história, uma obra de arte…Entrei na minha personagem e na minha vocação de escritora, pronto! Aos 13 anos obtive uma Menção Honrosa e publicação em concurso de contos do Almanaque do Tico-Tico, mas eu não declarei a minha idade, é claro, pois era concurso para escritores adultos. Aos 19 anos meu conto Ponto Morto, premiado em um concurso promovido pelo jornal A Gazeta, causou um verdadeiro impacto no meio intelectual de São Paulo – era um verdadeiro grito de revolta adolescente, considerado muito “forte e original” por escritores como Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, Jamil AlmansurHaddad, Lygia Fagundes Telles, Hernani Donato, entre outros.

M.A. – Quais foram as suas principais influências literárias?

C.P – Foram na maioria dos casos de autores estrangeiros. Dos nacionais, na prosa, Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Na poesia, Drummond, Cecília Meireles, João Cabral , e dos mais recentes gosto muito do Affonso Romano de Sant´Anna – mas como não me dedico à poesia, não seriam propriamente influências. Agora, com os estrangeiros, tive a sorte de ler muitos romances na adolescência, a Editora Globo de Porto Alegre traduzia Thomas Mann, Dostoievski, Proust, Kafka, Virginia Woolf, Joyce, Thomas Hardy, Dickens, um monte de autores, e a gente ia lendo e se deliciando com tudo. Três livros me fascinaram e realmente me influenciaram, primeiro “David Copperfield” de Dickens – que li aos 14 anos – e mais tarde um pouco, “Dublinenses” e “Retrato do Artista Quando Jovem”, de Joyce. Depois, na faculdade, no curso de letras, Proust e Flaubert. Em matéria de contos, até hoje tenho veneração por Cortázar. Mas somente comecei a escrever bem, a “achar minha voz”, como se diz, quando fui morar nos Estados Unidos , de 1959 a 1964, e então aconteceram duas revelações que me marcaram pelo resto da vida: a descoberta de Faulkner, poder ler no original um dos grandes romances da humanidade, “Absalom!Absalom!”, e de Henry James, pai da ficção moderna, principalmente com o inigualável “The Turn of The Screw” (“A Volta do Parafuso”), sobre o qual até escrevi uma tese. Mas acho que a primeira dessas revelações, desses momentos de epifania literária, foi “Perto do coração selvagem”, de Clarice, que li aos 15, 16 anos, me foi dado por uma professora, e realmente, a partir desse livro eu compreendi a literatura como algo diferente, que me tocou para sempre.

M.A. – Hoje você vive em Campinas-SP. Como foi sua vinda para a cidade e como sua vida aqui?

C.P. – Para meu gosto, meio parada, isolada. Sinto falta de ambiente profissional, eu adorava o ambiente das redações, a agitação cultural de São Paulo. Há 8 anos vim morar aqui porque um dos meus filhos era professor da PUC, e, de tantas coisas que me aconteceram, estou hoje em uma situação que nunca enfrentei antes, de dependência econômica, e tenho de morar com ele. Não me queixo da cidade, fui muito bem recebida, sou prestigiada, logo me convidaram para entrar nas duas academias de letras. Sempre vivi em cidades grandes, além de São Paulo e Rio, em Nova York, em Milão e em Roma me dei muito bem, consegui me integrar logo, produzi muito. Aqui, sozinha demais, escrevo muito, já estou escrevendo outro romance, que desta vez não tem nada de autobiográfico, mas sinto falta de gente para uma conversa estimulante, para debater ideias, acontecimentos. Continuo, apesar da idade que é muita, a ser uma pessoa inquieta, eu queria poder agir, ainda e sempre, como cidadã e intelectual participante – principalmente neste momento histórico em que se impõe “passar o país a limpo”.

M.A. – Qual a sua visão do mercado editorial para as mulheres hoje?

C.P.- Nem vejo mesmo. Vejo um monte de empresas, de negociantes, que poderiam estar vendendo calçados, bananas, cosméticos, mas que insistem em faturar em cima da mediocridade, do fácil, do déjà vu , das receitas de bolo, das emoções requentadas, da emoção barata, da auto-me-ajuda….etc. No Brasil, todo escritor mais sério, que realmente não tem só pretensão de aparecer ou de melhorar as finanças, mas que insiste em criar obra em “silence, exile and cunning”, como queria Joyce, não tem como concorrer com os que visam no mais das vezes criar apenas enredos chapados que servirão, se tiverem sorte, pensam eles, para mais um novelão das oito. Não existe pensamento na literatura que se faz hoje no Brasil. E isso, é um esvaziamento que seguiu as lutas ideológicas do século XX, as panelinhas esquerdosas, porque “pensar” nos últimos decênios do século passado, e até hoje, correspondeu apenas a vestir a camisa comprada feita , fabricada pelos “donos da verdade”. Não há debate, não há comprometimento interior, independente, do escritor, não há mais tempo para a interiorização, a reflexão, a obra bem feita.

M.A.- Cecilia, agradeço mais uma vez pela atenção. E para finalizar, gostaria de saber quais as autoras que você indica para os nossos leitores?

C.P. – No Brasil, na prosa Clarice Lispector, na poesia Cecília Meireles, entre as atuais Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon, veteranas. Estrangeiras: Virginia Woolf, Joyce Carol Oates (americana, pouquíssimo conhecida aqui, apesar de já traduzida), Lídia Jorge (portuguesa, importantíssima), Doris Lessing e Alice Munro (as duas são Prêmio Nobel!!!!) e também a francesa Marguerite Duras, excelente. Para citar só algumas que me vêm sem esforço, se eu parar para pensar virão aos montes.

Mayara Herculano Alves

Mayara Herculano Alves tem 28 anos, é psicóloga clínica e esportiva, apaixonada por literatura. Mora em Campinas, onde media o clube de leitura Leia Mulheres.

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