Ler mais mulheres: qual foi a diferença?

Por: Stephanie Borges | Em: 5 / janeiro / 2016

Em 2014 a provocação foi lançada, em 2015 vimos blogs, clubes de leitura, matérias e polêmicas. Mas na prática, o que representa tentar ler mais livros escritos por mulheres? Não estou falando de mercado, prêmios, presença de autoras em eventos, mas da experiência de leitura. Das questões que certos livros nos trazem, das descobertas.

Sempre achei importante ler de tudo, dar chance a autores que desconheço, escolher títulos que passam longe das ondas literárias. Só que o #readwoman me fez olhar a minha estante pela primeira vez e reparar na quantidade de homens brancos, em sua maioria héteros. E não era por falta de opções, era pura e simples desatenção.

Embora tivesse lido Jane Austen, Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Hilda Hilst, Angela Carter, Naomi Woolf, Alexandra Pizarnik, Doris Lessing, Wislawa Szymborska havia várias mulheres que eu queria ler, mas iam ficando pelo caminho porque tinha um livro novo do Murakami, fiquei curiosa pelo Karl Ove Knausgard, queria ler Junot Diaz e Andrew Salomon, fora os que já estava na pilha: Tolstói, Bioy Casares, Cervantes, Bradbury, William Gibson, Philip K. Dick e por aí vai.

Então um das minhas primeiras resoluções foi dar prioridade às autoras que eu tinha vontade de ler, mas ainda não tinha colocado no topo da lista de leituras. Foi assim que dois livros me atingiram: “O conto da aia”, da Margaret Atwood, e “Americanah”, da Chimamanda Ngozi Adichie. O primeiro por sua construção de um futuro distópico apavorante em que as mulheres são privadas de seus direitos e usadas como bens destinados à procriação (“Mad Max, a estrada da fúria”, oi?). O segundo, por ser o primeiro romance com uma protagonista negra com várias questões com as quais eu me identificava.

Aos trinta anos, achei uma protagonista negra e seu relacionamento com seu cabelo é um ponto relevante na narrativa. Para uma mulher negra seu cabelo está relacionado à identidade, autoestima ao quanto as pessoas tratam você como negra ou tentam te embranquecer socialmente. Pode ser motivo de bullying na infância, há pressão social para alisar, o gasto com produtos, o tempo desconfortável passado em salões. Havia também a possibilidade deixar tudo isso, aceitar os cachos, volumes, texturas e usar o cabelo natural. Eu me reconheci na experiência da Ifemelu e parei pra olhar a minha estante outra vez. A maioria das autoras que tinha lido até então eram brancas. E comecei a ir atrás da Maya Angelou, da Toni Morrison, da Nikki Giovanni para ver o que outras autoras negras tinham a me dizer.

Outras perspectivas começaram a se abrir, surgiram outras situações as quais presenciei, sobre as quais ouvi, vi acontecerem, mas apenas pela primeira vez eu lia a respeito. Comecei a reparar que, se um autor não indica que um personagem é negro, geralmente imaginamos uma pessoa branca. Um homem é muito capaz de fazer uma personagem feminina bem construída, mas algumas autoras estão comprometidas a explorar temas como a maternidade, o aborto, as preocupações de conciliar a vida profissional e a familiar. Não estou traçando um juízo de valores sobre a qualidade da literatura, porque não acho que isso esteja relacionado ao gênero. Bons e maus escritores estão no mundo. Há mulheres que não estão interessadas em ler sobre das dificuldades que já encontramos todos os dias. Mas era bom encontrar coisas sobre as quais só soube fora dos livros enfim escritas.

O que ganhamos, ou deixamos de ganhar, quando nos restringimos? Quando lemos algo que reafirma uma visão de mundo que nos é apresentada nas novelas, comédias românticas e outros formatos de entretenimento mainstream? Ao definimos uma zona de conforto de consumo e permanecemos nela?

Ler mais mulheres me trouxe pontos de identificação, mas também mostrou vivências com as quais nunca me relacionei. Apresentou feminilidades diferentes da minha. Fez pensar nas minhas avós, que não tiveram apoio da família para estudar, trabalhar e viam apenas casar, ter filhos e a vida doméstica como a única opção. Na minha mãe, que ficou viúva ainda jovem e precisou criar duas filhas sozinha. Nas minhas amigas que tem medo de casarem e se ofuscarem na convivência diária porque há toda uma expectativa sobre como uma mulher casada deve se comportar. Nas minhas amigas que querem ter filhos, mas não maridos, querem morar com seus gatos, cães e não terem filhos. Amigas que querem namorar homens e mulheres de acordo com o rumo de seu desejo sem terem que dar satisfações sobre isso.

Entendo que cada um escolha suas leituras de acordo com uma visão particular de mundo. Alguns querem se divertir. Outros encaram a leitura como busca pelo conhecimento. Há quem encare os livros como símbolos de distinção. São muitos os leitores e haverá livros para todos. No entanto, depois de cair na provocação do #readwomen já no fim de 2014, frequentar clubes de leitura, trocar impressões com outras mulheres que também perceberam o quanto suas estantes eram brancas e heteronormativas, que a chicklit as diverte mas não as representa, percebi que não adianta só falarmos dos livros, das autoras, cobrar presenças de escritoras em feiras. Precisamos refletir no impacto dessas leituras em nossas vidas. Observamos realidades sobre as quais sabíamos pouco? Descobrimos que existem mulheres enfrentando o machismo de formas diferentes, sobre as quais nunca pensamos a respeito? Aprendemos a ser mais tolerantes? Questionamos a dinâmica social que nos leva a olhar outras mulheres como competidoras?

Ler não é “trabalho de casa” e ninguém é obrigado a ter um momento – o que aprendi com este livro? – mas, depois de um pouco mais um ano, minhas percepções começaram a mudar. Antes eu achava que havia muitos mais escritores que escritoras, mas não procurava por elas ativamente. A decisão de ficar atenta me levou a anotar nomes, colocar e-books na lista da Amazon, pescar referências para próximas leituras. Foi assim que, em 2015, li Elena Ferrante, Roxane Gay, Harper Lee, Brené Brown, Kim Gordon, Rebecca Solnit, Sophie Hannah, Rainbow Rowell, Miranda July, Tina Fey, Amanda Palmer, Lilly King, Caitlin Moran, Sarah Dessen, E. Lockhart, Paula Hawkin, Natalia Ginzburg, Ariana Huffington e Shonda Rhimes.

Sim, li menos escritores, mas o que li foi muito bom. “Entre o mundo e eu”, do Ta-Nehisi Coates, “O gigante enterrado”, do Ishiguro, “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, do Junot Diaz, “Middlessex”, do Jeffrey Eugenides e “O que amar quer dizer”, do Mathieu Lindon. Eu nunca tinha lido mais mulheres do que homens durante um ano da minha vida. Não foi um ano melhor ou pior que os outros em termos de qualidade, mas foi diferente. Desconhecidos viraram parte do quero ler mais, ler autores não brancos virou um ponto a prestar atenção, voltei a anotar dicas para futuras leituras, o que eu não fazia desde a faculdade.

A experiência da representatividade foi importante para mim. Eu, que parei com o relaxamento há alguns anos e acho maravilhosos esses blogs e páginas com meninas e mulheres falando sobre as suas transições, trocando dicas sobre como cuidar de seus cabelos, percebi que precisamos encontrar mais histórias que falem até mesmo sobre o que pode parecer banal, mas não é. Se no fim de 2014, a minha estante era muito branca e hétero, hoje ela abriga mais mulheres, gays, negros, latinos, imigrantes, conhecidos de longa data e recém-chegados. Minha estante está mais parecida com minha vida, meus amigos, minhas fotos de família. Para algumas pessoas isso pode ser irrelevante. Para mim, é impossível isso não ser uma coisa boa.

Stephanie Borges

Stephanie Borges é uma carioca do subúrbio que veio para São Paulo seguindo seu coração. Jornalista e leitora, sua vida mudou quando descobriu que poderia trabalhar com livros. Beiras de praia, botecos de esquina e livrarias são alguns de seus lugares preferidos no mundo.

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