Entrevista: Verena Cavalcante

Por: Michelle Henriques | Em: 18 / janeiro / 2016

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Eu gosto de terror desde que me entendo por gente. Sempre gostei da sensação de medo, de angústia e do alívio ao terminar um filme ou livro (ou não). Os que sempre me chamaram mais atenção foram aqueles protagonizados por crianças, como “O Exorcista”, “A Aldeia dos Amaldiçoados”, “O Iluminado”, “A Profecia”, “Poltergeist” entre outros. Ver crianças em papéis assustadores sempre me causou uma angústia extra. Crianças são ligadas ao sagrado, ao puro, e nesses filmes e livros elas são colocadas como vilãs ou em situações de extremo perigo.

Por isso, eu estava mais do que curiosa para ler “Larva”, primeiro livro da autora Verena Cavalcante, composto por oito contos, todos narrados por crianças. O tom principal do livro é o de terror, mas não aquele clássico, de sustos, mas sim o de angústia, principalmente pela familiaridade.

A autora trata de temas do cotidiano, colocando as crianças como protagonistas, a visão delas é o que permeia cada conto. A fala delas é pura e sincera, mesmo ao tratarem de assuntos polêmicos e por vezes assustadores. Essa narrativa deixa o leitor desconfortável e esse é um dos pontos altos do livro.

Conversei com a autora e ela contou um pouco de suas influências, bem como de seu processo criativo. Confiram a entrevista abaixo:

1. Olá, Verena. “Larva” é seu trabalho de estreia, mas nos conte um pouco da sua relação com a escrita. Por que você decidiu ser escritora? Qual sua motivação para escrever?

Olá, Michelle. Minha relação com a escrita vem desde a infância. Aprendi a ler e a escrever aos quatros anos e, desde então, venho escrevendo: no início, voltei-me para histórias infantis; reescrevia A Pequena Sereia, Mogli, A Bela e a Fera, mudava coisas de que não gostava, acrescentava outras, fazia quadrinhos, chegava até a distribuí-los para colegas na sala de aula… É uma pena que tudo tenha se perdido ou ido para o lixo. Já na adolescência, além dos diários, escrevia as famigeradas fanfics, tinha centenas de leitores na Internet, e alguns fãs. Na época, eu usava um pseudônimo condizente com cada universo que explorava. Demorei muitos anos para decidir escrever algo meu, inteiramente autoral, que não tivesse um filme, uma banda ou outro livro como base. E, nesta época, tudo o que escrevia ia para o lixo. Sempre fui muito desapegada com meus escritos. Já cheguei a botar fogo neles. Hoje em dia me arrependo.

Meus pais e avós sempre incentivaram muito a leitura e a escrita. Meu avô escrevia, chegou a publicar dois livros sobre provérbios e frases feitas, minha mãe era uma grande leitora, meu pai me presenteava com cadernos e diários, por isso, minha relação com a literatura é bastante inerente. Não foi uma coisa que decidi fazer. É um vício, uma necessidade. Escrevo porque minha cabeça não para de pensar e, às vezes, preciso esvaziar minhas gavetas, encher uns vazios.

2. Você já teve outros trabalhos publicados? Quais suas influências em geral? E específicas para seu primeiro livro?

Coisas pequenas. Em 2012, um de meus contos, “Coleção”, foi publicado em uma edição da Revista Kyrial, um projeto bem legal do curso de Letras da Pontíficia Universidade Católica de Campinas; em 2014, fui selecionada para uma coletânea chamada “Seis Medos”, com o conto “Porta”, pela editora Fubá Books, cuja proposta seria lançar o e-book até 2015, mas ainda não tive notícias do andamento do trabalho; e, em 2015, fui primeira colocada no IV Prêmio Literário Cidade Poesia, com o conto “Herança”.

Minhas influências são, em grande parte, femininas. Tenho predileção pelo realismo-fantástico e naturalismo na literatura, mas também gosto de romances góticos e pós-modernos. Sou influenciada pelos seguintes autores: William Faulkner, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Samantha Schweblin, Miguel Torga, Lucio Cardoso, Florbela Espanca, Shirley Jackson, Anne Sexton, Angela Carter, João Guimarães Rosa, Lyudmilla Petrushevskaya, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Raduan Nassar, José Mauro de Vasconcelos, entre outros.

Quando comecei a escrever “Larva” eu tinha acabado de sair de “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, de Hilda Hilst, e “Menina a Caminho”, de Raduan Nassar. Os dois livros foram lidos enquanto eu escrevia o primeiro conto e criava o conceito e estrutura da obra. “O Caderno Rosa de Lori Lamby” foi essencial para a escolha da narrativa em primeira pessoa e do chamado monólogo interior das personagens. Como eu já tinha decidido que seria um livro sobre crianças/infância, foram livros especialmente importantes para todo o meu processo criativo.

3. “Larva” é todo narrado por crianças. Os contos são curtos, ágeis e constroem um clima de tensão. Como se deu a escolha desse tipo de narração? Por que escolheu crianças como narradoras?

Eu queria escrever um livro sobre a infância e, ao mesmo tempo, desmistificar a ideia de que ela é o melhor momento da vida, um lugar mágico, maravilhoso, intocado pelo mal, lar de tudo o que é bom e belo. Interesso-me muito por psicologia infantil e ela explora muito a ideia de que é na infância que têm origem nossos problemas. A maioria dos nossos traumas vem da infância. Nossas fobias vêm da infância. Nossas inseguranças, nossos problemas psicológicos, nossos abusos… Grande parte dos nossos horrores vem de quando éramos crianças vulneráveis à podridão da sociedade e das pessoas. Crianças corrompidas viram adultos doentes. Adultos doentes corrompem crianças que viram adultos doentes. Eu queria que fosse um livro-denúncia.

Sobre a narrativa, escolhi a primeira pessoa, fluxo de consciência e monólogo interior, simplesmente porque as crianças são muito instáveis, pulam de um assunto ao outro, tiram conclusões, divagam, falam em círculos. Achei que fosse a melhor maneira. Aí já não sei.

4. Como foi a escolha dos contos que compõem o livro? Você tinha mais material e teve de deixar algo de fora?

A escolha dos contos foi assistemática. Eles foram surgindo, um após o outro, até que eu não aguentei mais escrevê-los. Eu tinha conceitos/ideias para mais outro livro, ou um só volume mais extenso, mas o peso das histórias era muito grande para mim. Já fazia dois anos que eu estava imersa naquela dor e abuso. Eu queria sair, por isso, desisti, deixei pra lá.

5. Como é o seu processo de escrita? Você escreve todos os dias? Edita seus textos? Como funciona?

Meu processo de escrita é inexistente. Eu não tenho disciplina, eu não tenho método, eu simplesmente vou rabiscando. Às vezes abro o documento do Word, bonitinho, outras vezes escrevo em cadernos, no celular, já escrevi até na mão! Depois fica tudo espalhado, mas eu sei exatamente onde encontrar e juntar um pedacinho no outro, feito quebra-cabeças. Mas eu não consigo me dedicar a uma só coisa. Ano passado, por exemplo, eu tinha vários projetos já encaminhados, mas passei o ano todo sem tocar em nenhum deles. Por outro lado, criei outros, escrevi uns textos soltos, inventei umas coisas novas, mas, no geral, procrastinei, devaneei e fiquei frustrada comigo mesma.

Eu e meu companheiro somos revisores de textos, portanto, além de eu mesma editar meus textos, depois de deixá-los descansando por uns meses, sempre peço para ele dar uma olhada, que é quando ele encontra mais uns errinhos e faz sugestões de melhora ou de cortes. “Larva” foi editado pelo menos 10 vezes.

6. Como você enxerga a mulher no mercado editorial? Você teve mais obstáculos para ter seu livro publicado, ainda mais escrevendo um gênero que não é considerado tão comum entre escritoras?

Olha, a mulher no mercado editorial ainda é bastante marginalizada. Por mais que tenhamos algumas (poucas) representantes significativas na literatura, a mulher ainda é vista não como incapaz, mas como se tivesse menos a dizer, como se seu repertório intelectual fosse limitado em comparação com o do homem. Algumas vezes, quando mencionei a colegas ou familiares estar escrevendo um livro, recebi, automaticamente, a pergunta: “É um livro de romance?” Uma pergunta que, acredito, jamais teria sido perguntada a um homem, a menos que ele fosse reconhecido mundialmente por seus romances de amor, como Nicholas Sparks. Também já ouvi algumas pessoas dizendo que, eu, como mulher, não deveria ter escrito tantas “palavras feias” nos meus contos. Aparentemente, é algo que não pega bem. Descobri recentemente.

Ainda, convivo com pessoas que, ou estão envolvidas no meio literário, ou leem bastante, ou interessam-se por arte e literatura em geral, mas nunca leram uma autora mulher sequer. Quando questionadas sobre o porquê disso, elas simplesmente dão de ombros, como se fosse o acaso, ou Deus, que lhes tivesse jogado o livro nas mãos, “Tó, lê aí!”, não que tivessem escolhido, meticulosamente, suas leituras. “Ah, nunca tive o interesse.” Vivemos em uma cultura que ama os homens e tudo o que eles fazem e diminui as mulheres. Logicamente, esta noção se manifesta em todas as áreas da sociedade, inclusive, na arte. Mas ainda não sofri com isso, não. Vamos ver.

7. E quais são seus projetos futuros? Continuará no terror ou pretende explorar outros gêneros?

Este ano desisti de um romance no qual trabalhei há cerca de dois anos, mas tenho quatro outros projetos engatilhados. Em 2016, pretendo me dedicar a um deles, também de contos, no qual estou voltada para o realismo-fantástico, as tradições orais, os contos de fadas e os “causos” de roça. Se for considerado falar sobre as mazelas do ser humano terror, então, sim, continuarei seguindo este caminho.

Verena, muito obrigada pela entrevista. E aguardamos suas próximas publicações. :)

Para adquirir o livro, basta acessar o site da editora: http://www.oitoemeio.com.br/loja/oito-e-meio/larva/

 

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no Necronomiconversa e no The Witching Hour.

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