Carol

Por: Leia Mulheres | Em: 27 / janeiro / 2016

Com a adaptação de “Carol” chegando aos cinemas em breve, corri para ler o livro antes da estreia do filme. Eu já conhecia a faceta “escritora de suspense” da autora e estava bem curiosa para ver como ela se sairia em uma história de amor não convencional. O que encontrei não poderia ter sido melhor: uma narrativa ágil, um tom realista e o viés psicológico tão característico da obra da Highsmith.

Therese é uma moça de 19 anos, aprendiz de cenógrafa, mas que trabalha como balconista do departamento de brinquedos de uma grande loja, no natal, para pagar as contas. É justamente quando estava atendendo no balcão que vê, em meio a um mar de pessoas que disputavam a atenção das vendedoras, uma mulher elegante, alta, magra e loura. Ela vestia um casaco de pele, assim como muitas outras, mas havia algo mais nela. Seus olhos cinzentos capturaram o olhar de Therese e a atraíram para si, numa espécie de magnetismo. Seu nome, como a jovem viria a saber pouco depois, era Carol.

A cena do primeiro contato visual intenso entre Therese e Carol, que foi baseada em uma experiência parecida vivenciada pela própria Patricia Highsmith nos tempos em que trabalhou como balconista, é realmente marcante. Impossível não se sentir atraída por aquela mulher que emanava uma aura hipnotizante em meio à multidão de compradores desesperados.

Para Therese, foi amor à primeira vista (ou pelo menos era o que ela achava, já que mais tarde disse nunca ter se apaixonado antes). Para Carol, uma forma de conseguir a boneca que pretendia comprar para a filha (como ela confessa algum tempo depois, quando as duas já estavam envolvidas). Therese, num ímpeto, decide enviar um cartão de natal para Carol, que educadamente aparece na loja para agradecer e convida a vendedora para almoçar. E assim, duas mulheres que aparentemente não tinham nada em comum iniciam uma relação, a princípio confusa e quase que unilateral, mas que vai ganhando importância na vida de ambas.

Entre Therese e Carol havia diferenças significativas de idade, de classe social e de estado civil: a primeira era recém-saída da adolescência, vivia de subempregos para pagar as contas enquanto corria atrás da tão almejada carreira e mantinha um relacionamento morno com um rapaz sem ambições, enquanto a segunda já estava na casa dos trinta anos, tinha um alto padrão de vida, era casada e tinha uma filha. Therese é a juventude em estado puro, apaixonada, impulsiva, sonhadora, disposta a jogar tudo para o alto para viver um grande amor; Carol tem o peso da maturidade sobre os ombros e, mesmo querendo embarcar no romance, precisa enfrentar a dura realidade de um divórcio e da ameaça da perda da guarda da filha – não é difícil entender sua hesitação.

Se viver uma relação homoafetiva hoje em dia já é difícil, imagine nos anos 50, época em que se passa a história. O preconceito e a discriminação eram tão grandes que os frequentadores de estabelecimentos gay ou gay-friendly desciam antes das estações de metrô certas para não serem perseguidos e estigmatizados, correndo o risco de perderem seus empregos, serem atacados, ou sabe-se lá mais o que.

É nesse contexto que viviam as protagonistas do livro – isso fica claro quando Carol roça nos pés de Therese discretamente por baixo da mesa e quando suas mãos se tocam brevemente entre as xícaras; no entanto, Carol fica tensa quando Therese segura em seu braço por alguns segundos em público. A própria Therese expressa sua confusão ao perceber que se sentia atraída por Carol, mas que não se enquadrava no estereótipo masculinizado das lésbicas. Leva suas dúvidas ao então namorado, Richard, que diz que uma garota gostar de outra pode até ser normal na adolescência, mas que ela já tinha passado dessa fase e deveria se preocupar com coisas mais importantes (como o casamento que ele desejava e do qual ela fugia – e que tinha um peso ainda maior em tempos de pós-segunda guerra).

“Carol” foi o segundo livro de Patricia Highsmith, recusado por sua editora devido ao seu conteúdo e publicado sob o pseudônimo de ‘Claire Morgan’ por outra casa, já que os editores originais queriam que ela escrevesse outro suspense, na linha daquele que marcara sua estreia (“Pacto Sinistro”, que foi um estouro depois de chegar às telas pelas mãos de Hitchcock). “Carol”, cujo título original era “O preço do sal”, foi lançado em 1952 e conseguiu algumas boas críticas, mas só virou sucesso quando chegou às lojas como edição de bolso, vendendo quase um milhão de exemplares.

Aliás, o que significa o título ‘O Preço do Sal’? No livro, há duas menções ao sal. Na primeira, Therese, sozinha enquanto Carol permanece em Nova York para tratar do divórcio, entra em um café, mas, ao ouvir uma canção que costumar escutar com Carol, vai embora refletindo: ‘A música estava viva, porém o mundo estava morto. E a canção morreria um dia, pensou, mas como haveria de renascer o mundo? Como haveria de voltar a ter sal?’. Na segunda, Therese, ainda longe de Carol, encontra o amigo Dannie e pensa que: ‘(…) se sentia tímida com ele e, no entanto, de certo modo, próxima, uma proximidade carregada de algo que ela nunca sentira com Richard. Algo em suspenso, que lhe agradava. Um pouco de sal (…)’.

O primeiro significado que me ocorreu é o mais óbvio, de sal como elemento que dá um tempero à vida. Mas e o ‘preço’? O sal também já foi usado como moeda (de onde veio a palavra ‘salário’), ou seja, é algo muito valioso. Carol é valiosa para Therese. A relação delas é valiosa. Mas tem um preço. Do que as duas teriam que abrir mão para conseguir viver seu amor?

Independente dos sacrifícios que as personagens teriam que fazer para manter o relacionamento, uma coisa é certa: existe a possibilidade de terem um final feliz. E isso foi uma inovação e tanto, em um tempo em que todas as histórias cujos personagens do mesmo sexo se apaixonavam terminavam com eles se matando, morrendo de forma trágica ou, no caso de mulheres, condenadas a viver um casamento de aparências e a gerar filhos que não gostariam de ter. Palmas para Highsmith!

‘Mas a atitude deles era a de que eu devia ser uma demente ou cega (além de haver uma espécie de desencanto, achei, pelo fato de uma mulher bastante atraente ser presumivelmente indisponível aos homens). Alguém trouxe a “estética” para o debate, é claro que contra mim.’

MiG

 

 

Michelle Gimenes é tradutora, chocólatra inveterada, leitora voraz e cinéfila nas horas vagas. Sua ideia de um dia perfeito são nuvens cinzentas no céu, um sofá confortável e um livro ou filme envolvente para ser apreciado com gatinhos ronronantes no colo.

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