As meninas

Por: Mariana de Ávila | Em: 13 / janeiro / 2016

O começo do livro “As meninas”, da paulista Lygia Fagundes Telles, se apresenta como um desafio para quem está lendo. O texto da autora é marcado pela voz de três personagens que se revezam contando a história. No entanto, o estranhamento inicial diminui um pouco após a leitura de algumas páginas, quando o leitor já consegue identificar, por meio de características na própria narrativa, a personalidade de cada uma das três meninas do livro.

Lorena, Lia e Ana Clara são as personagens do romance, ambientando na ditadura militar da década de 1970. As três amigas vivem juntas num pensionato de freiras em São Paulo, onde trocam confidências e, também, onde se passa a maior parte da história.

Lorena vem de uma família rica e parece viver em função de um cansativo amor platônico. Em sua vez na narrativa, ela ressalta que aguarda o telefone de M.N., um médico casado por quem é apaixonada. Lia de Melo Schultz é filha de uma baiana com um alemão. Apelidada de Lião, ela é uma militante de esquerda que se envolve na luta contra a ditadura. Ana Clara Conceição, deslumbrada com riqueza, quer se casar com um rapaz rico, mas é apaixonada por um traficante de drogas. Por seu envolvimento com as drogas, os trechos em que Ana Clara é a narradora são marcados por falas apressadas, sem pontuação e ainda mais confusas.

Em abril de 2009, a Companhia das Letras iniciou um trabalho de reedição das obras completas de Lygia Fagundes Telles. Com projeto um novo projeto gráfico, as obras foram revistas pela própria autora e ganharam comentários escritos por críticos e escritores brasileiros no final de cada livro. A nova edição de “As meninas” acompanha uma crítica de Cristóvão Tezza e o texto de orelha da primeira edição, de 1973, escrito por Paulo Emílio Sales Gomes. Além disso, há um depoimento de Lygia Fagundes Telles, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo no dia 12 de outubro de 1975. Assim como em outras oportunidades, a autora menciona, neste texto, a importância de testemunhar e registrar determinado tempo. Se Carlos Drummond de Andrade disse que “lutar com a palavra é a luta mais vã”, Lygia Fagundes Telles cita o poeta e não se acanha:

“Os versos são do poeta e valem para sempre, uns lutam com o cimento armado. Com as leis. Outros, com os bisturis. Com as máquinas – tantas e tão variadas lutas. Eu luto com a palavra. É bom? É ruim? Não interessa, é a minha vocação.”

Em certo momento da história, a combativa Lia lê um texto sobre as crueldades ocorridas durante a ditadura militar. Em um evento literário promovido pelo Itaú Cultural , em 2011, Lygia Fagundes conta que o relato lido pela personagem é, na verdade, a reprodução de um panfleto que denunciava as torturas sofridas dentro de presídios. A inserção desse trecho no livro reforça ainda mais a vontade de Lygia de registrar, por meio das palavras, o período que estava vivendo.

Integrante da Academia Brasileira de Letras, Lygia Fagundes apresenta no livro sua posição diante da ditadura. A obra, que ganhou adaptação fílmica homônima, se dedica a acompanhar as três personagens da história, mergulhadas cada uma em suas próprias angústias e sofrimentos. “As meninas” é, portanto, o retrato de uma época, contado a partir do ponto de vista de três mulheres de origens distintas e sonhos diferentes. A leitura não é fácil nem fluida. Com o passar da história, é até possível identificar a personalidade das personagens; no entanto, as falas e pensamentos das três, não raras vezes, se misturam num confuso discurso indireto livre que pode afastar e desanimar leitores.

Este livro será discutido na quinta-feira, dia 14 de janeiro, em Brasília.

Mariana de Ávila

Mariana é jornalista e possui Especialização em Leitura e Produção de Textos. Já trabalhou em portais de política. Atualmente, atua como freelancer, produzindo matérias para veículos impressos e eletrônicos.

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