A Via Crucis do Corpo

Por: Michelle Henriques | Em: 10 / dezembro / 2015

Miss Algrave sentia-se muito feliz, embora…Bem, embora.” (pág. 15)

Dia 10 de dezembro seria aniversário de Clarice Lispector e para comemorar a data, a Editora Rocco nos convidou para fazermos um clube especial sobre a mesma. Pensamos em algum livro dela e caímos em “A via crucis do corpo”. Confesso meu medo com Clarice. Li “A Hora da Estrela” quando estava na escola e a releitura neste mesmo ano foi muito prazerosa. Mas com outros livros dela não tive a mesma sorte. Sempre ficou o estranhamento, a dificuldade de entrar naquele mundo criado por ela.

Hilda Hilst disse uma vez “Fico besta quando me entendem”, e eu sempre penso na Clarice com essa frase. A famosa entrevista dela para a Cultura fez com que eu me aproximasse um pouco dela Não ouso dizer que a entendo, mas os caminhos para esse entendimento me parecem mais claros hoje.

“A via crucis do corpo” foi um livro encomendando. Escrito entre 11 e 13 de maio de 1974, a revista Veja chegou a chamar a obra de “lixo”. São 13 contos e uma introdução que serve como conto. Nela Clarice brinca com o leitor, fala que são textos reais (sendo que o primeiro conto tem uma cena de sexo com um extraterrestre!) e ironiza: “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo”. E de lixo, no sentido literal, não há nada.

Todos os textos são curtos, e de alguma forma falam de sexo, feminilidade e relações entre pessoas. E tudo de uma maneira bastante estranha, incômoda e por vezes, cômica. O título do livro deriva de dois contos, “O Corpo” que trata de poligamia, e “Via Crucis”, uma releitura da história de Jesus. Alguns dos contos, levando em consideração a introdução, parecem autobiográficos, como é o caso de “O homem que apareceu” e “Por enquanto”. Já “Miss Algrave” tem a citada cena de sexo com um extraterrestre, além de abordar o tema da sexualidade reprimida. Por outro lado, “A língua do P” fala abertamente de estupro.

O que chama bastante a atenção é que vários textos terminam falando de morte, como “Fui me deitar. Eu tinha morrido” (“O homem que apareceu”) ou então “A gente morre às vezes” (“Por enquanto”). Em contrapartida, o conto “Via Crucis” fala de nascimento, e “Ele me bebeu” termina com “Acabara de nascer. Nas-ci-men-to”. Assim como o equilíbrio do sagrado e do profano, morte e nascimento andam lado a lado nesta obra de Clarice.

De uns anos para cá Clarice ficou popular nas redes sociais com frases soltas, fora de contexto, geralmente frases felizes e de motivação. Clarice não escrevia assim. Seus livros são todos intensos, carregados de metáforas e muitas vezes de difícil entendimento. “A via crucis do corpo” é de certa forma mais acessível, a linguagem parece mais clara, mas ela vem repleta de significado.

Hoje acontece o Clube #leiamulheres em São Paulo baseado nesse livro.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

Veja outros posts de Michelle Henriques