Parque Industrial

Por: Juliana Gomes | Em: 30 / novembro / 2015

Durante uma mesa no festival Pauliceia Literária, a autora chilena Lina Meurane foi questionada sobre literatura latina e o que ela recomendaria. Citou “Parque Industrial” da Patrícia Galvão, e disse ainda que utiliza esse livro para mostrar aos seus alunos de cultura latino-americana na Universidade de Nova York como a América Latina é desigual, e como as questões da mulher e do mercado de trabalho ainda persistem no dia a dia da população. Eu, na plateia desse evento apenas marquei a indicação e fiquei estarrecida por nunca ter lido Pagu.

O livro foi escrito em 1932 e publicado com pequena tiragem financiada por Oswald de Andrade no ano seguinte. Fato interessante é que nessa época havia uma polarização entre os comunistas e fascistas, algo que se assemelha ao que vivemos hoje sem diálogo e com discursos extremistas, por isso o livro é tão atual. Com relação ao romance, Patrícia afirma: “Pensei em escrever um livro revolucionário. Assim nasceu a ideia de ‘Parque Industrial’. Ninguém havia feito literatura nesse gênero. Faria novela de propaganda com pseudônimo, esperando que as coisas melhorassem”.

Afastada do PCB, Pagu resolveu escrever com o pseudônimo Mara Lobo, fazendo apologia ao partido. Apesar de muitos críticos não concordarem, o livro é considerado  o primeiro romance panfletário editado no Brasil. Um livro que não só é esteticamente diferente, embora alguns pesquisadores afirmem que ela não tinha nenhuma ambição literária com o romance, mas que também relata problemas sociais, fato não abordado na primeira geração dos modernistas. A autora oferece instantâneos das muitas questões que a industrialização trouxe para a cidade e sua classe trabalhadora, formada também por muitos imigrantes. A miséria da classe trabalhadora e da exploração desenfreada que sofreram. Além disso, ela aborda as políticas de gênero da época, ilustrados na novela por muitas mulheres sendo abusadas e tratadas como prostitutas.

De acordo com o tradutor do livro para o inglês, Kenneth David Jackson, “Parque Industrial” é “um importante documento social e literário, com uma perspectiva feminina e única do mundo modernista de São Paulo”. Alguns críticos menosprezam o romance por seu caráter social, o que na verdade é altamente discordável: quando se lê e percebe o quanto continuamos com as questões sociais e trabalhistas na mesma situação de quando o livro foi escrito em 1932.

“Parque Industrial” é o retrato do proletariado paulista na década de 1920 com enfoque nas mulheres, mas a circunstância, o momento político e histórico, é o personagem principal. A história segue as lutas de três mulheres operárias na cidade de São Paulo. Corina, uma negra, é demitida quando fica grávida de um homem casado. Torna-se prostituta e devido a uma doença venérea seu filho nasce sem pele e morre e é presa como homicida. Eleonora escapa da pobreza dos trabalhadores ao se casar com Alfredo Rocha, um homem rico marxista, mas ela esconde sua homossexualidade. Otávia é uma ativista comunista que também se envolve com Alfredo. A história é contada em um estilo impressionista, com breves vinhetas. São Paulo, uma cidade em rápida mutação torna-se tanto um personagem como as próprias mulheres: fermento marxista e organização do trabalho são difundidas; uma greve dos trabalhadores é brutalmente reprimida. Através de tudo isso, essas mulheres fortes sobrevivem – em um mundo onde a partilha de pipoca salgada com um amante, em última análise, é mais real do que toda a conversa sobre o triunfo do proletariado.

“Parque Industrial” é um documento sociológico de uma época e de extrema importância para ser lido, refletido e passado a outras gerações. Talvez pela paixão com que Pagu argumenta os problemas da época e na verdade, como ela se sentia silenciada tanto pelo partido quanto pelo meio literário, o livro possa parecer apenas um manifesto panfletário pessoal mas é bem mais do que isso. Assim como hoje há argumentações das questões sociais e mais propriamente o feminismo é apenas utilizado em causa própria, esse romance vem nos mostrar que a luta por igualdade e melhorias vem de sempre e assim como Pagu muitas de nós são colocadas em cheque. Gracias, Lina Meurane.

Saiba mais sobre “Parque Industrial” e Pagu: AS VIOLÊNCIAS EM PARQUE INDUSTRIAL E A FAMOSA REVISTA, DE PATRÍCIA GALVÃO

 

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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