Írisz: As Orquídeas

Por: Emanuela Siqueira | Em: 13 / outubro / 2015

Para o estrangeiro não existem os fatos, as notícias, as coisas do dia a dia. Ele não sabe que há uma crise financeira, que o presidente do país é desenvolvimentista, que uma nova capital está sendo construída, uma corrente musical se opõe a outra por causa da imitação de modas importadas. Ele não entende o que escrevem os jornais, o que diz o rádio, por que as pessoas parecem preocupadas e talvez nunca venha a entender. Ele acha tudo bonito: a sujeira nas ruas, o barulho, a poluição. Vive num mundo suspenso, mesmo quando há dificuldades econômicas ou sociais. Mesmo que o tratem preconceituosamente, pensa que é assim que deve ser nesse outro lugar, onde os fatos desapareceram. (p.103)

Para alguém que acompanha o blog Quando nada está acontecendo da escritora Noemi Jaffe – onde ela publica pequenos aforismos e devaneios sobre o cotidiano, o quase-sempre-desapercebido – não é difícil mergulhar nos diálogos surdos e epistolares entre a húngara Írisz e o brasileiro Martim, ambos tão próximos pela botânica mas separados pelas formas que cada um encara uma ideologia e as formas de lidar com a vida.

Em Írisz: As Orquídeas, a personagem que dá nome ao livro vem ao Brasil fugindo da revolução de 1956 em que a União Soviética invade a Hungria a fim de acalmar as revoltas populares, abafando qualquer manifestação democrática contra as duras regras em prol de um bem – que acreditavam ser – coletivo. A jovem botânica desembarca em São Paulo a fim de pesquisar orquídeas, plantas que ainda sabe pouco mas que alimenta grande expectativa, no Jardim Botânico da cidade sob a tutela de Martim, botânico que dirige a instituição e membro do Partido Comunista Brasileiro.

Usando a narrativa epistolar, Írisz: As Orquídeas brinca com os diálogos entrecortados entre Martim, Írisz, uma espécie de comentarista entre fases e a aparição do pai da botânica. Através dos relatórios obrigatórios Írisz desabafa e recria o seu passado tentando buscar respostas e motivações para sua fuga. Entre descrições e análises das plantas epífitas ela introduz o leitor a um mundo de luta de ideologias, famílias desestruturadas, amores abandonados e doce de papoulas.

Como bem diz o trecho que introduz esse texto, Írisz é estrangeira e estar no Brasil em 1956 é apenas uma questão de geografia, apesar do momento político por aqui. Ao passo em que ela se esforça para aprender o português, comparando a língua e suas métricas à propria lígua materna, que tenta ser parte das movimentações na capital paulista e que se anexa à vida de Martim, ela é exatamente como uma orquídea, uma planta de raízes aéreas e independente, nunca se sentindo em casa mesmo considerando determinado lugar um lar.

Ela e a orquídea são mesmo parecidas. Brotam no ar, no alto de outros seres fincados na terra – esse sim o lugar certo para crescer. Alimentam-se dos restos de outros seres espalhados por aí e, por isso, passam por parasitas. (p.13)

As orquídeas estão em todos os lugares que possa imaginar. Olhe em volta e as veja em sacadas de apartamentos e janelas de casas. A orquídea é uma planta capaz de ser encontrada em qualquer clima do mundo, menos na Antártida. Ela se alimenta de restos de outras plantas e tem raízes aéreas que possibilitam independência. Não é a toa o fascínio de Írisz pelas plantas, elas justificam seu exílio como forma de fuga, de se estar em outro lugar sem pertencimento, ou pelo menos fingindo não pertencer.

O momento histórico é plano de fundo e parece – apenas insinua – que ele é uma desculpa para que a história de Írisz se desenvolva. Ela não abandonou apenas um país tomado por uma ideologia que deturpou os seus sonhos de igualdade, ela deixou a irmã e a mãe senil, deixou um amante revolucionário, que não conseguia abandonar os ideais. A decepção com a revolução e com a insistência de alguns de seus pares em continuar acreditando em uma revolução falida, são parte essencial do discurso de Írisz em seus relatos e devaneios.

E se existe uma coisa que me faz duvidar de quase tudo em que acreditei é, em nome da revolução, Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista Italiano, ter mudado o final do filme “Ladrões de Bicicleta”. No filme, Antonio Ricci e seu filho perdem a bicicleta, para nunca mais recuperá-la. Mas, na versão modificada pela “revolução”, eles conseguem, com a ajuda do Estado, resgatá-la. Isso eu não posso admitir. A bicicleta se perdeu. Nada deve, e nem pode, salvá-los disso. (p.69)

No texto “Infinitude do Real”  – via blog da Companhia das Letras – Noemi relata os estudos feitos para o livro sobre a militância de esquerda no Brasil e suas conversas com o militante da época Armênio Guedes, falecido esse ano. É interessante a forma em que é construído o discurso de Írisz, tomado por lembranças de outro lugar, em primeira pessoa e informal, com detalhes que mesclam – e dialogam – a vida privada e a vida pública do Partido. Com Martim – cuja construção foi inspirada – nos relatos de Armênio – a percepção nas formas em que o Partido afeta sua vida acontecem no decorrer dos discursos e com as leituras dos relatos de Írisz.

O livro ainda conta com as ilustrações de orquídeas da designer Tereza Bettinardi que ilustram de forma didática os relatórios de Írisz fazendo com que o leitor se beneficie não só do texto, mas também do design do livro e das formas que os relatórios são entrecortados por uma voz divagadora, muito próxima da usada por Noemi em seu blog pessoal.

Mas as palavras carregam coisas que ficam além do que elas dizem, num lugar onde está o que elas ‘querem dizer’. Eu sinto como se elas guardassem uma origem perdida. Então quero, desse jeito teimoso que você, Martim e todos recriminam, criar um vínculo entre aquilo que a palavra foi um dia e o significado de agora. Parece que, desse jeito, as palavras e as coisas voltam a ter algum sentido maior. (p.24)

Írisz: As Orquídeas é um livro sensível, poético e elegante sem deixar de ter uma visão crítica sobre uma época e fatos históricos. Noemi Jaffe orquestra muito bem as vozes de Martim e Irisz através de um jardim repleto de orquídeas oriundas de vários cantos do mundo, coloridas, belas e efêmeras mas também acompanhado por espinhos e descobertas de novas espécies.

 

E no dia 15 de outubro às 19h, o livro será debatido na Livraria Arte & Letra em Curitiba.

Aqui mais informações.

 

Emanuela Siqueira

Emanuela Siqueira Pesquisadora de autoria feminina ­ principalmente as Beats ­, Fã de barulho, Livreira e Cosmogazer.

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