Hibisco Roxo

Por: Alessandra Jarreta | Em: 23 / outubro / 2015

Em um julho de 2009, Chimamanda discursava sobre os problemas de conhecer uma única versão da história de uma pessoa, porque por mais que ela não seja completamente errada, é provável que esteja incompleta.

Por muito tempo eu conheci apenas uma versão da historia da África. Uma de imensa desigualdade social, fome e guerra – uma visão branca. O “Gigante da África”, como é conhecida a Nigéria, foi colonizada pelo Reino Unido e só nos anos 60 conquistou sua independência. Fato recorrente entre as colônias, suas tradições foram reprimidas pelo colonizador, que impõe sua própria cultura, acreditando serem seus costumes os únicos civilizados.

Quando criança, Eugene, o pai da protagonista de “Hibisco Roxo”, foi acolhido por missionários e assimilou uma história branca e católica sobre o mundo, redefinindo suas convicções do que é certo e errado, e desenvolvendo duas personalidades: de um lado, um religioso fanático e violento, que espanca quase até a morte filhos e esposa, e que despreza ferozmente tudo considerado pagão, incluindo o próprio pai. Do outro, um pai dedicado que ama sua família, ajuda os pobres, paga escolas para crianças desconhecidas e é dono de um jornal progressista, que ataca sem se deixar intimidar a ditadura e a situação em que se encontra o país.

A história nos é narrada por Kambilli, sua filha mais nova, que depois de um incidente com seu irmão mais velho em um jantar da família começa a nos contar a sequência de fatos que os levaram até aquele ponto. Ao conhecer melhor Kambilli, é surpreendente descobrir uma adolescente de 15 anos, que pelo seu modo de falar e de perceber as coisas, mais parecia uma criança, recatada e assustada. A única visão de mundo que conhece é a que lhe foi dada por seu pai, por quem nutre sentimentos de amor e medo. Seu maior desejo é deixa-lo orgulhoso e seu maior pavor, decepcioná-lo, como quando ele descobre que a filha ficou em segundo lugar na escola.

Chimamanda nunca diz, mas é palpável que há algo errado com aquela garota, o pai, a casa e o país. Parece uma história deprimente, em que tudo que a sua protagonista conhece é opressão (por parte do pai, da religião, do regime). Entretanto, essa é uma história sobre uma adolescente que aprende a sorrir.

A autora escreve com simplicidade e delicadeza, mas não se importa em ser didática. Fala sobre a cultura da Nigéria sem explicá-la, assim como nenhum autor russo ou inglês se dá ao trabalho de explicar de onde vem. Não interessa se você entende todas as expressões ou temperos. Somos observadores de um mundo de que conhecíamos apenas uma versão da história – agora somos apresentados a outra.

Alessandra Jarreta

Veja outros posts de Alessandra Jarreta