A Garota da Banda

Por: Michelle Henriques | Em: 29 / outubro / 2015

Minha educação musical começou com a MTV e com a revista Bizz. Numa época sem internet nós dependíamos dos clips e dos amigos que nos gravassem fitas para conhecermos músicas novas.  No longínquo ano de 1998 foi lançado o disco “A Thousand Leaves” do Sonic Youth e “Sunday” foi meu primeiro contato com a música deles. Ali começou a minha admiração pela banda e aos poucos fui conhecendo melhor a carreira deles.

Aos 11 anos eu não entendia a importância de bandas com mulheres, como Hole (mesmo com todas as controvérsias), Bikini Kill, Babes in Toyland e claro, Sonic Youth. Liderada pelo casal Kim Gordon e Thurston Moore, a banda esteve na ativa por mais de 20 anos, enquanto durou o casamento de seus líderes. Começando pelo fim da história, Kim Gordon nos presenteia com sua autobiografia intitulada “A Garota da Banda”.

“A Garota da Banda” começa do final, do último show realizado pelo Sonic Youth, que aconteceu no SWU, no Brasil. O casamento dela e de Thurston já havia acabado – por causa de uma traição dele – e o clima da banda não era dos melhores. Já adiantando sua birra (não encontro termo melhor) com Courtney Love, Kim Gordon diz que não quis “fazer barraco” como Love fez.¹

Após falar do último show da banda, Kim Gordon volta no tempo e começa a narrar um pouco da sua trajetória, de sua infância, da vida de seus pais, do convívio com seu irmão esquizofrênico e como isso a afetou, de seus estudos e de seu envolvimento com a arte, da mudança para Nova Iorque, e finalmente do encontro com Thurston e o nascimento da Sonic Youth.

Um dos pontos mais bacanas do livro é que Gordon escreveu capítulos dedicados a cada um dos primeiros discos gravados pela banda. Ela conta um pouco das gravações, escolhas das capas, influências para algumas letras e fatos curiosos sobre as turnês. O mesmo recurso é utilizado no ótimo documentário “Heaven Adores You”  sobre o cantor Elliott Smith.

Não há menções sobre o uso de drogas, pelo menos não da própria Kim Gordon. Mas há espaço para críticas à Lana Del Rey e Courtney Love, pois ela seria intensa demais para o frágil Kurt Cobain. Críticas à Love são mais que comuns, ainda mais vindas de uma amiga pessoal de Cobain.

Em determinado momento do livro ela critica as Spice Girls, por conta da postura do “Girl Power”. OK, era a favor das meninas, mas todas dentro do padrão, magras e seguindo uma estética determinada pela mídia. Elas surgiram logo após o movimento Riot Grrrl começar a perder fôlego e houve um aproveitamento do que seria o feminismo na música. Mais um ponto para Gordon: eu nunca tinha pensado dessa forma.

Para a sorte dos leitores e dos fãs, várias mulheres do rock estão lançando livros. Aqui no Brasil já temos os maravilhosos “Só Garotos” da Patti Smith (em breve terá resenha do mesmo aqui) e “A Arte de Pedir” da Amanda Palmer . “A Garota da Banda” se junta a eles para formar uma importante tríade para qualquer mulher interessada em música, feminismo e arte em geral (as três, além de cantoras e musicistas, estão envolvidas em diversos meios artísticos).

Assim como “Só Garotos”, esse não é um livro apenas para fãs da banda, mas sim para todos que apreciam uma boa escrita, uma ótima narrativa de fatos que envolvem a música, a vida de uma das mulheres mais conhecidas do cenário alternativo e a sua fragilidade ao narrar acontecimentos tristes de sua própria vida.

¹ Nesse mesmo festival, durante o show do Hole, fãs seguravam fotos do Kurt Cobain. Love disse que estava cansada de sempre encontrar fotos de seu marido (que cometeu suicídio no ano de 1994) em todos os shows e que se não parassem, ela encerraria o show. Depois de alguns instantes, após pedidos para que a plateia insultasse Dave Grohl, ela voltou e finalizou o concerto.

Este livro será debatido no clube de leitura #leiamulheres em Recife no dia 14.11.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

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