Como ser Mulher

Por: Michelle Henriques | Em: 11 / setembro / 2015

Caitlin Moran nasceu em 1975 em Brighton, a mais velha de oito irmãos foi criada em Wolverhampton e aos 18 mudou-se para Londres. Ela começou sua carreira como jornalista na revista Melody Maker e logo estava trabalhando em outras mídias, sempre cercada de música e da cultura pop. Sua autobiografia “Como ser mulher” foi publicada em 2011 e usa sua vida como plano de fundo para tratar de diversas questões sobre o feminismo, bem como diz o subtítulo: “Um divertido manifesto feminista”.

O livro começa com um bom ritmo, a autora nos conta um pouco de sua infância e adolescência. Ela aborda questões como menstruação, masturbação e pelos de uma forma bastante divertida e leve. Moran foi uma adolescente gorda e ela frisa bem o fato de que a palavra “gorda” não é um xingamento. Isso é bastante importante, mesmo que mais para frente ela diga algo como “emagreci e arrumei um namorado”.

O livro é cheio de referências e citações a outras feministas, bandas e personalidades da cultura pop, principalmente britânica. No decorrer da minha leitura eu anotei páginas e mais páginas das tais referências. Isso é bacana, mas chegou num ponto que começou a incomodar. Claro que não é necessário insultar a inteligência do leitor e explicar tudo nos mínimos detalhes, mas seria bacana uma ou duas notas de rodapé. Um livro desse tema deve ter alcance mais amplo, inclusive para pessoas de outras culturas.

Em uma discussão a respeito deste livro no meu perfil do facebook, uma amiga disse que “Como ser mulher” não é tão legal quanto “A arte de pedir” de Amanda Palmer, mas também não é uma falcatrua como “Não sou uma dessas” de Lena Dunham. De uns anos para cá foram publicados vários livros de mulheres que são ícones de muitas jovens, e é preciso apontar o que há de errado na fala delas.

Lena Dunham fala com deboche sobre a questão do estupro em seu livro, e também usa termos absurdos como “predador sexual” para se referir à sua relação com sua irmã. “Não sou uma dessas” é um dos piores exemplos para meninas jovens, e mesmo assim Caitlin Moran disse que Lena Dunham é o futuro do feminismo. Isso é bastante problemático.

Caitlin Moran é bastante ativa no twitter. Em 2011 uma garota a questionou a respeito do uso da palavra “retardada” no livro e o resultado? Moran bloqueou a garota. Acho bastante questionável a postura de uma mulher que se afirma feminista e bloqueia outra mulher que a questiona ou gostaria de debater algo complexo.

Geralmente não levo autobiografias a sério, mas como disse no começo do meu texto, quando falamos sobre feminismo, precisamos englobar a experiência de todas as mulheres. Moran usa o feminismo para falar de uma europeia branca, que passou por dificuldades, mas mesmo assim teve ótimas oportunidades na vida. Sua fala não engloba todas as mulheres. Ela não poderia falar sobre a vivência das outras, mas também não pode excluí-las.

Não existe uma fórmula mágica de como ser mulher, depende da criação, do ambiente, da cultura e de diversos outros fatores. Uma mulher nem sempre nasce com uma vagina. A vivência de uma mulher branca é totalmente diferente da negra. Uma mulher magra é vista de uma forma, a gorda, de outra. Não é tão simples, e aqui recorro à frase já clássica de Simone – “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Infelizmente, o livro de Caitlin Moran não contempla todas as mulheres.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

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