Cinderela Chinesa

Por: Mariana de Ávila | Em: 16 / setembro / 2015

Adeline Yen Mah passou a infância e adolescência sob quase abandono absoluto. Não fosse o carinho da tia e do avô, ela não chegaria perto de saber o que é afeto. Se, ao ler a história, senti pontadas de angústia e tristeza ao acompanhar o desprezo vivenciado por Adeline, fiquei imaginando o quão doloroso deve ter sido o processo que a autora passou de revisitar o passado e colocar no papel toda renegação por qual passou dentro de casa. Na verdade, essa dor é destacada pela própria Adeline no prefácio do livro.

Cinderela Chinesa é minha autobiografia. Foi difícil e doloroso escrevê-la, mas me senti compelida a fazê-lo. A história da minha infância é simples e pessoal, mas, por favor, não subestime a força desse tipo de relato.” (p. 11)

Duas semanas após nascer, Adeline perdeu a mãe; diante disso, a irmã e os irmãos insistem em culpar a caçula pela morte. O pai casou pouco tempo depois com uma eurasiana catorze anos mais jovem. A madrasta, por pura maldade, não suporta Adeline e faz de tudo para demonstrar e descontar todo ódio que tem dentro de si na criança.
Despejada e esquecida em colégios internos, Adeline encontra nos livros um refúgio para a solidão. Em dias de visitas, quando é a única menina a não receber ninguém, costuma ir à biblioteca e mergulhar em clássicos como Rei Lear. Suas companhias, em muitos momentos, são Cordélia, Regan, Goneril e Lear.

“A poesia e a compaixão contidas em Rei Lear haviam me comovido de modo tão profundo que eu simplesmente não conseguia me controlar. Boa parte do sofrimento dele parecia espelhar o de meu avô em casa. Contra toda lógica, eu tinha a sensação de que Shakespeare havia pensado especialmente em meu avô Ye Ye ao escrever sua peça imortal quatrocentos anos antes.” (p. 144)

O vovô Ye Ye e a tia Baba eram as únicas pessoas que mantinham laços afetuosos com Adeline. Desde cedo, os dois a incentivavam a estudar e destacavam cada conquista obtida na escola. Por ser bastante esperta e dedicada, Adeline frequentemente se tornava a primeira da classe, gerando inveja nos irmãos e alimentando uma esperança própria de que o pai, talvez vendo esse bom desempenho escolar, pudesse sentir orgulho da filha e estreitar as relações. Às vezes, o pai até soltava alguns elogios, mas eram bem breves. A carência de atenção filial de Adeline era tão gritante que esses curtos momentos eram suficientemente marcantes para encher a chinesa de expectativas de se sentir acolhida, ainda que o pai fosse um sujeito detestável. Afinal, como alimentar esperanças quando se tem um pai que, ao embarcar em uma viagem de avião, não consegue preencher o cartão de embarque da criança por não lembrar o nome chinês da própria filha? É de cortar o coração.

Os casos com os irmãos também indignam quem está lendo. Para citar um exemplo entre tantos repugnantes, há um episódio em que os irmãos oferecem suco à Adeline, que imediatamente fica feliz pelos irmãos terem lhe chamado e oferecido suco. A alegria, no entanto, se esvai de maneira repentina quando, ao colocar a bebida na boca, Adeline percebe que seus irmãos misturaram urina ao suco.

Com uma escrita leve e sensível, a impressão é que estamos, de fato, diante de um relato contado por criança, ainda que a autora tenha escrito a obra quando já era adulta. Adeline Yen Mah ainda coloca no livro muitas referências à cultura chinesa. A escritora viveu sua infância em um delicado momento histórico, com as causas e consequências da II Guerra Mundial e com o próprio país passando por guerras civis. Adeline consegue, com bastante sutileza, mostrar como esse período histórico influenciou a vida na China.

Assim como aconteceu quando li “Cinderela Chinesa” aos 17 anos, terminei a releitura com um misto de aperto no peito e emoção por acompanhar ao longo de pouco mais de 150 páginas toda a perseverança presente em Adeline. Dedicado às crianças renegadas, torço também para que esse livro chegue às mãos de quem está sem esperança e esquecido.

“Para todos aqueles que foram abandonados e indesejados quando crianças, tenho uma mensagem especial. Apesar de tudo de ruim em que tentaram fazer vocês acreditarem, por favor, tenham a certeza de que cada um de vocês tem dentro de si algo único e precioso.” (p. 11)

Mariana é mediadora do Clube de Leitura #leiamulheres em Brasília e o encontro sobre esse livro acontece dia 17.09 no Sebinho, mais informações aqui.

Ilustração: “The Sisters (Grand Family No. 7)” de Zhang Xiaogang.

Mariana de Ávila

Mariana é jornalista e possui Especialização em Leitura e Produção de Textos. Já trabalhou em portais de política. Atualmente, atua como freelancer, produzindo matérias para veículos impressos e eletrônicos.

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