A Garota no Trem

Por: Stephanie Borges | Em: 14 / setembro / 2015

O romance de estreia de Paula Hawkins tem seus problemas, mas é uma leitura honesta para quem procura um romance policial sem grandes pretensões. A verdade é que gostei de A garota no trem porque a narrativa começou a me incomodar e eu não sabia o porquê até me dar conta de que o romance expõe o quanto as mulheres competem entre si, desprezam e desumanizam umas às outras, às vezes sem o menor motivo.

Para quem não se inteirou sobre a trama, o livro narra história de uma mulher que pega o trem diariamente para Londres e passa por uma casa que tem os fundos para a linha do trem. Ela observa a vida de um casal e cria toda uma fantasia a respeito deles, imaginando a vida perfeita dos dois. Até o dia em que uma jovem desaparece, e a passageira-espectadora do trem tenta ajudar a desvendar o crime e acaba se complicando.

O livro é narrado do ponto de vista de três mulheres – todas três narradoras não confiáveis – e num determinado momento, me chamou a atenção o quanto elas se criticam entre si, pensam mal umas das outras. No entanto, quando se referem aos homens, ainda que apontem falhas de caráter ou omissões, elas tentam justificar os erros deles. A empatia das narradoras é direcionada aos personagens masculinos, mas não é distribuída entre as outras mulheres presentes na trama.

Outra coisa marcante é a relação delas com a maternidade. Uma deseja terrivelmente ser mãe e tem uma extrema dificuldade em ver um propósito em sua vida ou uma forma de felicidade que não inclua ter filhos. Outra parecia mais confortável com a ideia de ser mãe antes de se ver totalmente dedicada a cuidar de um bebê. A cobrança social e interna para que uma mulher se torne mãe, assim como o estereótipo do que é ser uma boa mãe, se tornam motivo de infelicidade para essas mulheres, e Hawkins explora isso na construção da história.

O casamento também é fundamental para essas narradoras. Uma delas está insatisfeita, não compartilha seus segredos mais profundos com seu marido, convive com ciúme excessivo, invasões de privacidade, mas não consegue admitir os traços de violência na relação. Outra personagem aceita uma série de atitudes estranhas de seu marido sem questioná-las para manter a paz no relacionamento, ainda que isso signifique viver numa casa que pertenceu a uma ex-mulher que ela considera obsessiva e perigosa, sem fazer mudanças no ambiente que diluam a presença da antiga dona.

É claro que o conflito é necessário à ficção e que, se todas as personagens fossem mulheres que confiassem em seus instintos e se mantivessem saudáveis, parte da premissa do livro não funcionaria. No entanto, a autora parece forçar a mão no quanto essas mulheres cedem para agradar seus homens, no quanto elas procuram ignorar em favor da boa convivência. É impressionante o tanto de culpa que atribuem a si mesmas e a uma grande dificuldade de olhar para si mesmas e para outras mulheres com compaixão (não falo da autopiedade, que também está presente no livro, e em alguns momentos é cansativa).

Entre as investigações e as pistas para que o leitor monte seu quebra-cabeças, Hawkins explora o alcoolismo feminino e impulsos autodestrutivos, mas parece contrabandear diversas questões que podem passar despercebidas para quem só está de olho no crime. Achei bacana que um livro comercial, escrito com a pegada best-seller e com claras intenções de ser adaptado para o cinema apresente pontos como “a maternidade não é um mar de rosas” ou “o casamento nem sempre é a fonte de toda a satisfação que uma mulher pode ter” ainda que diluídos.

Ao final da leitura, não saberia dizer se A garota no trem é um livro feminista, mas achei interessante que um produto tão voltado para o mainstream traga discursos dissonantes do que costumamos encontrar. Pode-se também encontrar nele um alerta: o quanto um esforço excessivo para se adequar ao que é socialmente aceitável pode ser prejudicial.

Outra coisa que me intrigou é porque um livro com uma protagonista com mais de trinta anos se refere a ela como garota, quando se trata de uma mulher. Será que A mulher no trem não seria atraente o bastante para o grande público, ou será que Rachel não poderia ser considerada uma mulher enquanto não tomasse controle de sua vida? É um caso a se pensar.

Stephanie Borges

Stephanie Borges é uma carioca do subúrbio que veio para São Paulo seguindo seu coração. Jornalista e leitora, sua vida mudou quando descobriu que poderia trabalhar com livros. Beiras de praia, botecos de esquina e livrarias são alguns de seus lugares preferidos no mundo.

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