O Primeiro Homem Mau

Por: Stephanie Borges | Em: 13 / agosto / 2015

Sabemos que as pessoas são estranhas, mas não deixa de ser perturbador quando um livro te joga dentro da cabeça alguém mais esquisito que você. Em O primeiro homem mau, quando começamos a simpatizar com a sua maluquice de Cheryl Glickman e a torcer por ela, damos conta de que estamos no meio de uma galeria de malucos. E de qualquer coisa pode acontecer naquele romance.

Cheryl é uma quarentona solitária. Ela nutre uma estranha paixão por Phillip, um sessentão colega de trabalho. Ela é a narradora do romance e, aos poucos, tenta explicar a Phillip sua crença de que os dois são um casal que se reencontra há várias encarnações, e por isso, deveriam ficar juntos.

Vamos entendendo as manias de Cheryl e sua ligação Kulbelko Bondy, um bebê, que poderia ser seu filho, seu amante, uma alma com a qual ela deveria se relacionar ao longo da vida, mas de quem se desencontra frequentemente. Em meio a solidão da personagem, o livro nos coloca diante de uma questão simples: não importa o quão estranho, solitário, cheio de manias você seja, todo mundo quer ser aceito e amado.

Um dia, os chefes de Cheryl pedem, com aquele tom de imposição pseudoamigável, que ela hospede sua filha Clee. E a narradora se vê com uma loura bonita de 20 anos, bagunceira, antipática no meio da sua sala. Clee é desagradável. E sua presença perturba Cheryl em tantos níveis que ela não consegue verbalizar.Elas não discutem. A tensão entre as duas cresce até o momento em que elas partem para agressão física. E aí as duas criam uma espécie de jogo, no qual o objetivo é partir pra porrada. É assim que elas começam a se entender.

O leitor se fará perguntas como “Por que Clee foi morar com a Cheryl?” e Miranda July não se dá ao trabalho de responder. A autora parece mais interessada em explorar as dinâmicas entre os personagens, suas fantasias e as dificuldades das pessoas diante do próprio desejo. O relacionamento entre as duas mulheres passa por vários estágios e é curioso como July usa o que elas não dizem para conduzir a trama. Para além do caos doméstico e afetivo das duas, a escritora nos revela as inadequações de Phillip e Ruth-Anne, a terapeuta de Cheryll, que parece tão louca quanto sua paciente.

O primeiro homem mau é uma leitura desafiante. É difícil não julgar os personagens em algum momento, mas a forma como July equilibra as maluquices e fragilidades de cada um é cativante. O livro é uma história de amor nada convencional, na qual diversas formas de amor, desamor e coisas que a gente pode confundir com amor (mas não são) estão presentes. Embora tenha achado o epílogo meio corrido, o romance me pareceu um exercício de empatia. Um lembrete de que há pessoas lidando com obsessões, dificuldades em se aceitar, medos e desejos que mal podemos imaginar. E, no entanto, amar e ser amado, mesmo fora das convenções sociais, é algo poderoso, e que nos confere algum sentido na vida em um mundo em que tudo é arbitrário.

 

Stephanie Borges

Stephanie Borges é uma carioca do subúrbio que veio para São Paulo seguindo seu coração. Jornalista e leitora, sua vida mudou quando descobriu que poderia trabalhar com livros. Beiras de praia, botecos de esquina e livrarias são alguns de seus lugares preferidos no mundo.

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