Por Lugares Incríveis

Por: Juliana Gomes | Em: 28 / julho / 2015

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Alguns autores te perseguem e te marcam com as palavras. Se posso dizer que dois autores possuem esse poder comigo, admito que são Virginia Woolf e Cesare Pavese. Eles conseguem ter um domínio sem igual sobre mim. Esses autores me fascinam desde muito cedo pelo não medo de ser triste ou da sensação de abraço, de não estar só. Afinal, quem não foi um adolescente com rompantes de tristeza e lia poemas e romances de maneira insana? Talvez nem todos, mas eu era um deles.

Você pode estar se perguntando o que isso teria a ver com o livro “Por Lugares Incríveis”. O poeta italiano é citado inúmeras vezes como quase um alter ego de Theodore Finch e “As ondas” de Virginia Woolf é como um glossário para que Violet possa entender a si mesma e aos acontecimentos que virão a seguir.

Se este céu azul pudesse permanecer para sempre, se esta abertura pudesse durar para sempre, se este momento pudesse durar para sempre.. […] Sinto-me reluzir na treva. […] Estou vestida, estou preparada. Esta é a pausa de um momento, o momento sombrio.” As ondas, Virginia Woolf

Tudo começa com um mal entendido, o problemático Theodore encontra Violet (da turma mais popular da escola) em cima de uma torre e a salva de cometer o suicídio. Mas ele diz o contrário quando ambos descem de lá, faz com que todos acreditem que ela o salvou. O livro coloca em cheque a questão da popularidade/felicidade e como o mundo não não presta atenção nas doenças mais profundas como o luto e a depressão. O parapeito da torre é o simbolismo do abrigo para uma garota que perde a irmã num acidente e para um garoto com problemas que a família finge não existirem.

Ficar no parapeito da torre do sino não é para morrer. É para ter controle. É para não dormir mais de novo.” Finch

O luto de Violet é pela irmã que morre em um acidente de carro e o luto de Theodore é por ele mesmo, pela sua luta contra as lembranças e vivência com um pai abusivo. Ao mesmo tempo, através das músicas e livros eles mantêm uma conexão e um ponto de equilíbrio. E isso acontece de maneira mais efetiva quando Theodore escolhe Violet para ser sua dupla em uma pesquisa de Geografia, sobre diversos lugares de Indiana (os tais “lugares incríveis” do título).

O despreparo das famílias e da escola são nítidos e os jovens se comunicam melhor entre eles na busca pelo apoio. Não é uma questão de aceitação mas de auto-aceitação e conseguem isso muitas vezes um no outro.

A autora, Jennifer Niven, é gentil com os personagens, como a amiga de Violet que esconde segredos e não a julga, apesar da personalidade aparentemente nada agradável. Há um consentimento de ouvir os personagens nesse repasse ao leitor. Esse é um livro sobre a compreensão de nós e dos outros.

Saia dos preconceitos com os livros YA (young adult) e se permita. Eu com meus quarenta anos não lia algo tão simples e tocante há meses.

O amor é um grande manifesto, a urgência de ser, de ter alguma importância e, se a morte vier, morrer com valentia, com clamor – em suma, permanecer da memória.” Cesare Pavese

P.S. Tem clube de leitura hoje, dia 28.07, e esse livro será debatido junto com a equipe da Revista Capitolina na Blooks SP
P.S. 2 – O livro terá versão cinematográfica
P.S. 3 – Aqui o link de uma playlist que a própria autora criou inspirada  no livro
P.S. 4 – Talvez eu também faça alguma playlist de YAs incríveis que tenho lido

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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